sábado, abril 28, 2007
Indie Lisboa | Rabia

Rabia quer dizer raiva em castelhano. Raiva é o que Camila Sepúlveda (Carola Carrasci) vai acumulando ao longo de quase um ano à procura de emprego. Todo o filme acompanha esta mulher de 25 anos numa sucessão interminável de esperas para entrevistas para o posto de secretária, detendo o olhar também nas outras candidatas ao lugar. Vamos sabendo fragmentos das suas vidas, há quanto tempo estão desempregadas, quais as suas habilitações, quais as suas dificuldades e esperanças. Tudo no filme é um lento calvário, e o crescente desalento da protagonista vai-se tornando a pouco e pouco imenso e extremamente tocante. Para tal muito contribuiu o desempenho de Carola Carrasci, num exercício de contenção muito bom.

“Rabia” chega-nos do Chile, país de origem da obra vencedora do grande prémio da edição do Indie do ano passado, “Play”. Todavia, trata-se de um trabalho muito diferente. A primeira obra escrita e realizada por Oscar Cárdenas Navarro pode apresentar algumas fragilidades de primeira obra mas são compensadas pela urgência do tema. Filmado com câmara digital, o filme tem um tom que se aproxima muito do documental, quase da reportagem. Rodado em dois dias, em espaços reais e com contributos de improvisos dos actores, “Rabia” reveste-se deliberadamente de uma aura realista e poderíamos mesmo dizer que há aqui filme-alerta: Cárdenas Navarro pretende denunciar o inferno do desemprego e a luta inglória para sair dele. E a saída por vezes é tudo menos um alívio, como se pode observar na parte final do filme.

Um filme que vale antes de mais pela forma como serve as suas intenções. Diria que como filme-alerta acaba por ser mais alerta que filme, mas independentemente disso não deixa de ser uma obra perturbadora e necessária.


posted by H. @ 11:20 da tarde   0 comments
Indie Lisboa | Half Moon

De Bahman Ghobadi apenas vi “As Tartarugas Também Voam”, boa surpresa que passou pelos cinemas no final do ano passado. “Half Moon” (“Niwe Mung” no original), feito para o New Crowned Hope foi o filme que Ghobadi realizou a seguir e diria que é um passo em frente na edificação de uma carreira sólida de realizador. “Half Moon” não é uma obra-prima absoluta, mas é sem dúvida um filme notável e belíssimo, provavelmente o melhor que verei no Indie este ano.

Acompanhando a viagem de um conceituado músico curdo e dos seus filhos para dar um concerto após anos de proibição sob o regime de Saddam, “Half Moon” respira Requiem, mas um Requiem onde o sentimento do fim se alia a uma alegria melancólica de últimos dias. Mamo, o velho músico, pressente a sua morte ao longo de toda a viagem, mas mesmo assim quer fazê-la até ao fim, até pisar o palco outra vez, junto dos seus filhos e da voz celeste que outrora o acompanhara.

Já alguém chamou a Ghobadi o Kusturica iraniano, e realmente há um humor e um sentido festivo que aproximam o autor de “Half Moon” do de “Underground”. O retrato humano que Ghobadi nos lega é indissociável de um sentido de contexto político-social, neste caso de divulgação da situação dos Curdos, bem como de notória homenagem à sua cultura. Há muito de colorido e musical em “Half Moon”. É impossível que não toquem os nossos sentidos os ritmos e as cores do filme, seja pela música quase omnipresente seja pela forma de majestade natural como nos são mostradas as belas paisagens do Curdistão (o formato em scope foi uma opção feliz).

Todo o final é de uma beleza avassaladora, e embora já nos preparássemos durante todo o filme para algo assim, tudo ali de certa maneira nos surpreende, nos suga e nos deixa rendidos perante uma simbiose perfeita entre graça e tristeza. Sublime poesia.

posted by H. @ 12:40 da tarde   0 comments
Indie Lisboa | El Amarillo

Obra de estreia do argentino Sergio Mazza, “El Amarillo” é uma das obras em competição no Indie e embora não tenha a competência técnica de outras obras a concurso, é um filme que não desaponta, sobretudo por um olhar que procura a beleza telúrica do meio em que se passa e que acaba por envolver o espectador.

Tudo começa com a chegada de um forasteiro a uma pequena localidade rural. Interpretado por Alejandro Baratelli, este viajante desembarca de noite em La Paz e o primeiro lugar habitado que encontra é El Amarillo, um bar e casa de alterne onde pela primeira vez vê e ouve Amanda (Gabriela Moyamo). A sua voz logo o fascina e ele acaba por voltar no dia seguinte. É-lhe admitida a entrada no quotidiano do grupo de mulheres que habita o local. Ele trabalha, limpa, cozinha e tem a oportunidade de se aproximar de Amanda. A simplicidade com que tudo é mostrado encanta o espectador, que pela imagem granulada da câmara digital de Mazza se sente mais próximo daquele mundo solar, sereno e algo poético.

Apesar de a realização por vezes parecer algo insegura, deixando uma impressão de algum amadorismo, há um respeito e uma admiração pela cultura rural mostrada que fascina. Tal é particularmente notório nas cenas do Amarillo à noite, com os cantares e as músicas dos homens do campo, as mulheres a dançar, ou simplesmente os planos dos rostos.
Importa ainda dizer que este filme vive bastante do mistério sedutor das canções de Amanda, quase todas escritas e interpretadas pela actriz Gabriela Moyamo. É por elas que o homem se deixa ficar naquela terra e é muito por elas também que gostamos deste pequeno filme.

posted by H. @ 12:07 da tarde   0 comments
Indie Lisboa | Close to Home

O filme inicia-se num checkpoint de Jerusalém, com uma tensa e minuciosa inspecção a uma palestiniana. Uma jovem soldado israelita recusa-se a fazer o seu trabalho, alegando incapacidade emocional para continuar, mas a sua superior mostra-se inflexível. A desobediência da jovem acaba por conduzi-la à prisão. O episódio inicial de “Close to Home” (“Karov La Bayit” no original) surge como pretexto para introduzir a figura de Mirit (Neama Shendar), uma das jovens soldado que não se consegue relacionar com o grupo e que pelo seu desejo de agradar a alguém acaba com fama de delatora. Mas o início dá-nos ainda o mote para o que será uma constante ao longo do filme: mostrar as duríssimas condições de trabalho a que são submetidas estas raparigas e a forma como isso as afecta.

Contudo, o que o filme de Vardit Bilu e Dalia Hagar pretende não é de todo mostrar um lado humano e desculpabilizar Israel (as cenas dos checkpoints, aliás, são pouco abonatórias para a actuação israelita), antes é centrar-se em duas pessoas e filmar a construção de uma amizade num cenário de conflito que aqui não é mais exterior que interior.
Mirit, que quer sair daquela unidade porque está demasiado “perto de casa”, é colocada ao lado de Smadar (Smadar Sayar) a patrulhar as ruas. Enquanto Mirit é tímida, assustada e cumpridora das regras impostas, Smadar personifica uma ideia de independência a que Mirit talvez almejasse secretamente. À medida que vamos seguindo o seu quotidiano, percebemos o lado normal por detrás do uniforme. Elas pensam em homens, em cortes de cabelo, em peças de roupa. Por vezes fraquejam no exercício das funções. Percebemos que há muita coisa cuja importância questionam.
O lindíssimo final, ao som da também lindíssima “First Breath After Coma”, dos Explosions in the Sky, é um momento que certamente recordaremos após o filme acabar.

“Close to Home” é uma obra equilibrada e que resulta bem, embora sem grande arrebatamento. É uma janela que ilumina com outra luz pessoas e acontecimentos de um mundo de que todos os dias ouvimos falar por tristes razões.

posted by H. @ 11:02 da manhã   0 comments
quarta-feira, abril 25, 2007
Indie Lisboa | Analog Days

Mike Ott fez uma breve apresentação do seu “Analog Days”, dizendo que se inicialmente a ideia do filme era revolver em torno da política, tornou-se numa forma de expressar o alheamento dos jovens dessa mesma política. De facto, os momentos dos vários meses que compõem o filme são acompanhados de uma eleição senatorial, um bom pretexto para tentar perceber o desinteresse dos jovens.

É em “The Hottest State” que aparece um poster de “Masculin Feminin” de Godard, mas foi em “Analog Days” que me veio à cabeça esse filme. Sendo uma obra de ficção, “Analog Days” tem algo de documental, de caseiro. Filmado com actores desconhecidos numa pequena cidade nos arredores de Los Angeles, o filme de Mike Ott quer mostrar algo que existe: a passividade de um grupo de jovens perante escolhas e responsabilidades, num mundo que criticam mas que não têm vontade de mudar (paradigmático o “confronto” entre um dos jovens do filme e um dos tipos representativos de uma massa que despreza mas a quem não é capaz de fazer frente abertamente).
Há um momento em que uma das personagens pergunta a outra o que estarão eles a fazer daí a cinco anos, se estarão na mesma ali. Ela murmura que espera que não. O filme de Mike Ott coloca-se aí mesmo nesse impasse, nesse não saber, nesse vazio do presente.
No final, onde quatro amigos se vão separando, a última personagem a aparecer no ecrã encontra-se parada num sinal vermelho, que depois muda para verde. O que se passa a seguir não importa, importa é o que simboliza esse momento. A escolha entre seguir e ficar parado.

Elemento fortíssimo de “Analog Days” é a sua banda sonora, onde figuram temas de Elliott Smith, Joy Division, New Order, Interpol, Clap Your Hands Say Yeah ou Bloc Party. Em rádio, cassetes e gira-discos, nostalgicamente (ou não).
O presente é demasiado desinteressante, revoltante até. “So here we are again”. O futuro é uma incógnita. E Mike Ott compreendeu muito bem um pouco do que é ser jovem hoje.

P.S. Este filme tem provavelmente o melhor poster do Indie!

posted by H. @ 10:36 da tarde   0 comments
segunda-feira, abril 23, 2007
Indie Lisboa | Fresh Air

Integrado na competição internacional do Indie Lisboa chega-nos da Húngria “Fresh Air” (no original “Friss Levegö”), drama suburbano cinzento e desencantado.
Escrito e realizado por Ágnes Kocsis e Andrea Roberti, “Fresh Air” é um pequeno filme sobre a incomunicabilidade entre uma mulher, Viola, e a sua filha Angéla, uma jovem que sonha ser estilista e sente vergonha do trabalho da mãe como empregada de limpeza e vigilante numa casa de banho pública.

Ambientado num lúgubre espaço de Budapeste, com prédios pobres e ruas mal tratadas, “Fresh Air” é um retrato triste da vida de uma classe média baixa, vergada sob a rotina do trabalho e da carestia monetária. O aspecto socio-económico surge aparentemente como pano de fundo mas é indissociável deste fresco da vida de duas figuras das quais pouco mais sabemos que o seu quotidiano, algo insatisfatório para ambas. É a barreira da comunicação, alicerçada numa desistência de compreensão que se assume como tema central deste filme, obra com uma pulsão realista inegável, e com uma humanidade sem rodriguinhos.

Há como que uma prisão que envolve estas duas mulheres, cujo único momento de união parece ser a assistência à série “O Polvo”. Ambas esboçam tentativas de fuga (os encontros com estranhos da mãe e a partida para Itália da filha) que acabam por fracassar, e eventualmente acabam por aceitar a realidade. Mas essa, chamemos-lhe, tomada de consciência, que para a filha ocorre ao ouvir Nina Simone cantar “don’t let me be misunderstood” (momento lindíssimo), não é dada com floreados, mas na sua nua evidência. A comoção não é de todo estimulada, mas podemos descortiná-la.

Embora no geral “Fresh Air” ofereça pouco de novo nas situações que aborda, constituiu um trabalho interessante enquanto exercício sobre a incomunicabilidade e enquanto retrato social a partir de um caso. E revela uma jovem actriz a olhar com atenção: Izabella Hegyi.

posted by H. @ 10:58 da tarde   0 comments
domingo, abril 22, 2007
Indie Lisboa | The Hottest State




The Hottest State é um filme, e um livro, de Ethan Hawke que nos fala da “aproximação” da maturidade, das paixões, dos desgostos, dos traumas e dos respectivos recalcamentos da personagem de William Harding, um rapaz texano de 20 anos, concebido no banco detrás de um carro, distante dos pais que mal conhece, tímido na primeira aproximação às raparigas, com o sonho de ser actor de cinema. É no epicentro desta tumultuosa existência que começa a habitar Sarah, uma aspirante a cantora que mudará o “destino” de William.

Antes de mais, é impossível não vislumbrar em The Hottest State a genuinidade, profundidade e verosimilhança dos diálogos de Before Sunrise / Before Sunset. As longas conversas entre as personagens conseguem ter o mesmo encantamento das divagações de descobertas de Jesse e Celine. No entanto, as abordagens nos dois filmes demarcam-se no seu propósito. Enquanto que nos filmes de Linkater acompanhamos hora e meia da vida das personagens, a saber pouco do presente e quase nada do passado, em The Hottest State Hawke injecta mais “contexto” às relações, mais interligações com várias personagens. E como tal temos um filme diferente, não melhor, mas diferente.

A grande virtude do filme de Ethan Hawke é a sinceridade e o realismo com que criou aquelas personagens. É impossível não vermos naquelas “pessoas” traços da nossa própria personalidade e sobretudo vivência. Todos nós já nos sentimos amados, rejeitados, todos já sentiram a chama da paixão e a dor de querer apagá-la subitamente. Assim, quanto mais nos abrirmos ao filme, maior será a densidade com que nos toca e, consequentemente, maior será a nossa própria viagem, o confronto com a nossa essência e existência e com aquilo que queremos e sonhamos.

Poderia falar do belo trabalho dos protagonistas, da interessante e promissora realização de Hawke, da fascinante montagem que interliga a conversa banal de um café com os gemidos de prazer da cena ao lado, mas embora tudo isso seja verdade, a verdade é que a essência e o interesse deste filme está na história que nos conta. Apesar de alguns momentos se desviar ligeiramente da densidade que governa o filme, The Hottest State é um filme maduro, bem construído e que faz criar empatia com as personagens. É fácil compreender aquelas personagens, os motivos, as dúvidas, os anseios. E, na prática, é impossível não gostar ou não ser condescendente com os protagonistas. Talvez porque todos nós, um dia, já sofremos, já racionalizamos, e já amámos como eles.

posted by P.R @ 1:55 da tarde   7 comments
Indie Lisboa | Angel

Começamos a ver aqueles créditos iniciais em cor-de-rosa e pensamos O Ozon passou-se!. Eventualmente somos envolvidos pela vivacidade de Romola Garai, mas nesta longa evocação do melodrama clássico depressa perde o fôlego e não se consegue manter num equilíbrio precário entre a homenagem e o ridículo – caindo numa autêntica, perdoe-se o termo, piroseira.

Rodado em Inglaterra e em inglês, o filme conta-nos a história de uma jovem chamada Angel (sim, Angel!), filha de uma viúva de poucas posses que anseia vir a ser famosa como escritora. “Angel” segue o seu percurso desde o sonho à realidade, que por seu turno acaba por destroçar o sonho. Isto é, conhecemos a Angel adolescente determinada, cujos delírios românticos a roçar o absurdo vêm a ser publicados, alcançando o estrelato a que sempre ambicionou. Com a fama vem a riqueza, que lhe permitirá afastar o mais possível as suas origens e conquistar o homem que ama (e que não a ama a ela). Mas naturalmente nem tudo será um mar de rosas.
Perante as contrariedades que vão surgindo na sua vida e no mundo que a rodeia, Angel reage pela fantasia e imaginação, refugiando-se constantemente do real, que não parece querer aceitar ou sequer compreender.

Tirando partido de sumptuosos cenários e guarda-roupa, François Ozon esmera-se no aspecto de recriação de uma época (o filme decorre nas primeiras décadas do século XX) mas nunca perde o centro, isto é, a figura de Angel, encarnada com uma impressionante paixão por Romola Garai (“Dirty Dancing: Havana Nights”). Encontramos nos secundários prestações de algum relevo, nomeadamente uma nobre Charlotte Rampling que tem uma personagem com a qual o espectador consegue sentir uma certa empatia.

Apesar de conseguir ser minimamente interessante este retrato de uma mulher com tanta imaginação como falta de talento, o filme depressa cai na monotonia, arrastando-se penosamente por duas horas de tiradas de romance de cordel a roçar o insuportável. Não negamos que possa existir aqui uma intenção algo nostálgica de reviver obras passadas, mas a verdade é que de tanto forçar o encanto, o encanto que o filme poderia ter esgota-se rapidamente.
Ficam alguns momentos bem conseguidos e uma actriz a ter em atenção, mas não são suficientes para salvar este pequeno delírio ultra-romântico de François Ozon.

posted by H. @ 11:03 da manhã   1 comments
Indie Lisboa | Day Night Day Night

Day Night Day Night”, a primeira longa de ficção da realizadora Julia Loktev, é uma co-produção americana e alemã centrada em alguns momentos da missão de uma bombista suicida nos Estados Unidos. A sua primeira apresentação no Indie, onde participa na competição internacional, ocorreu ontem com alguns problemas, já que a cópia de 35mm que deveria ter sido exibida se perdeu “algures na Macedónia”, tendo sido exibida uma cópia Betacam com muito pior qualidade. Os espectadores foram avisados do facto no início da sessão, e confortados com a frase “neste filme a parte visual não é assim tão importante” (ainda alguém me há-de explicar onde é que num filme a parte visual não é sempre importante...).

“Day Night Day Night” é um filme de gestos e de sensações, não de explicações ou mensagens. Da jovem que se voluntariza para se fazer explodir em Nova Iorque nada sabemos, nem sequer o nome. Acompanhamo-la desde a sua chegada a uma cidade que parece não ser a sua, onde se encontra com várias outras pessoas, a maioria das quais não vemos o rosto. Assistimos aos seus preparativos, a sua estada no hotel, o banho, as insónias, a refeição, a escolha da roupa, a colocação da mochila. Ouvimos as explicações, estamos com ela. Porque é que ela o faz? Não sabemos. Se serve uma causa ou um desespero adolescente. As possibilidades desenham-se enquanto o filme se desenrola mas nunca se fixam, permanecem sempre num total aberto. Quem a armou? Também não sabemos.
Da jovem, interpretada por Luisa Williams, pouco mais poderíamos dizer do que tem uma voz doce e educada, parecendo uma típica menina bem comportada. A normalidade de toda esta situação anormal é uma das impressões que ressaltam do filme. Guarde-se a imagem da jovem a escolher gomas numa loja de doces com uma bomba às costas. Na familiaridade dos seus gestos reside talvez a maior perturbação que sentimos (ou a perturbação de não sentirmos perturbação).
Ela fala de vez em quando, dirige-se a alguém que tanto pode ser Deus como um ex-namorado. Mais uma vez, tudo parece ser possível mas nunca nos é permitido saber o que é o real.

[de seguida mencionarei alguns momentos que convém não saber quando se for ver o filme por isso quem não viu passe ao parágrafo seguinte]

Quando o engenho não explode começa a estranheza e, depois, o desespero. Todo o plano tinha sido orquestrado de forma infalível, todas as excepções (ser detectada, ser presa) haviam sido previstas e dotadas de estratégias alternativas. Nunca por nunca se pensara que a bomba não iria explodir. Mas que bomba? Nunca vemos o conteúdo da mochila. E se tudo não passou de um engodo? De uma, digamos, brincadeira de alguém? Desprovida de dinheiro, de documentos, de telemóvel ou – em último caso – de identidade, à jovem nada parece restar. Para alguém tão determinado a morrer, há um confronto bem mais desconcertante com a obrigatoriedade de viver. De viver na indefinição, solidão e vazio.

Com uma predilecção pelos grandes planos, a câmara de Julia Loktev é intrusiva, trabalhando habilmente uma sensação de proximidade desconfortável no espectador.
Obra intrigante e muito bem conseguida, “Day Night Day Night” será certamente um candidato de peso a vencedor do festival. É preciso este arrojo mais vezes.


posted by H. @ 10:17 da manhã   0 comments
sexta-feira, abril 20, 2007
Indie Lisboa | A Scanner Darkly

Começou ontem a 4ª edição do festival Indie Lisboa. A abertura oficial decorreu no São Jorge com “Life in Loops: A Megacities Remix” (hoje apresentado em filme-concerto), mas outros títulos foram exibidos nas várias salas onde o festival decorre e deter-me-ei aqui no que elegi para começar estes dias de festival. “A Scanner Darkly”, adaptação de Richard Linklater da obra de Phillip K. Dick, filme do qual já se ouve e se lê por cá há muito, em meses de incerteza no que tocava à sua estreia em cinema. Recentemente foi confirmado que o filme seria lançado directamente em dvd, mas o Indie proporciona duas oportunidades únicas para o apreciar em sala.

“A Scanner Darkly” remete-nos em primeiríssimo lugar para um outro filme de Linklater, “Waking Life” (2001), onde pela primeira vez usou a rotoscopia. O filme foi filmado com actores e as imagens foram depois desenhadas, de forma a que o resultado final de assemelha a uma animação de carne e osso. O aspecto formal do filme é pois a razão primeira do seu interesse, mas convém não esquecer onde bebeu, isto é, o livro. A Scanner Darkly, editado em Portugal como O Homem Duplo (pelo que consta numa má tradução, mas confesso que ainda não tive oportunidade de o ler), saiu das mãos do autor de outras histórias que o cinema já adaptou, quase sempre com bons resultados. Fale-se em “Blade Runner”, em “Total Recall” ou em “Minority Report”. Universos futuristas, com protagonistas atormentados e uma atmosfera alucinatória. “A Scanner Darkly” partilha de muitas destas matrizes, mas talvez mais do que em todos o efeito trip esteja presente. Talvez por isso ao vê-lo venha mais à mente “Fear and Loathing in Las Vegas”. Aqui a confusão dos seres torna-se a confusão do espectador. A sua existência sob o efeito da perigosa “substância D” é mostrada com a espontaneidade da sua perspectiva, sem a procura de uma lógica narrativa evidente. A estranheza é uma constante.
Naturalmente o filme é bem mais que uma exposição de fragmentos da vida de um grupo de junkies. Há um enredo, um “por detrás”, uma revelação final. E em tudo há uma ácida crítica à sociedade, a mesma em que Phillip K. Dick escreveu, a mesma em que viveram os amigos que sofreram irreversivelmente as consequências das suas adicções, como nos é dito antes de cair o pano. Há mais uma procura de responsabilidade que de culpa, mas acima de tudo há uma tentativa de compreensão.

“Waking Life” era luminosamente inquietante mas “A Scanner Darkly” é sempre sombrio e bem mais fechado e o espectador nem sempre o consegue alcançar. Mas independentemente disso, o seu radicalismo podia ser ainda maior.
O leque de actores do filme é bastante interessante, destacando-se um fabuloso Robert Downey Jr e uma (bem) reaparecida Winona Ryder. Mas este é claramente um filme de conjunto, em que se devem dividir os méritos pelos especialistas da equipa. Refira-se en passant os instrumentais de Graham Reynolds e as canções dos Radiohead.

“A Scanner Darkly” parece ganhar uma aura de “ovni” ainda maior após o seu visionamento, daí que se imponha uma total abertura mental para o ver. Não sendo uma obra arrebatadora, é sem qualquer dúvida um projecto a ver com a curiosidade que desperta a diferença e a inovação.


posted by H. @ 11:52 da tarde   2 comments
60º Festival de Cannes

Já foram apresentados os filmes que de 16 a 27 de Maio abrilhantarão o mais conceituado festival de cinema. Sendo o júri presidido pelo realizador inglês Stephen Frears, este ano, à semelhança de anos anteriores, a qualidade dos filmes que serão projectados é, aparentemente, indubitável. Dos vários filmes que concorrem ao galardão máximo do festival, a Palma de Ouro, destaco os seguintes:

- "No Country For Old Men" - Joel and Ethan Coen
- "Zodiac" - David Fincher
- "Les Chansons d`Amour" (Love Songs) - Christophe Honoré
- "Promise Me This" - Emir Kusturica
- "Le Scaphandre et le Papillon" - Julian Schnabel
- "Death Proof" - Quentin Tarantino
- "Paranoid Park" - Gus Van Sant

Estes são alguns dos 22 filmes que estarão concurso, 13 dos quais de realizadores que nunca participaram na competição oficial de Cannes. Para além desta bela panóplia, os flamejados que tiverem a oportunidade de ir ao Festival poderão ver ainda o "My Blueberry Nights” de Wong Kar-wai, "Sicko" o novo documentário de Michael Moore e "Ocean´s Thirteen", filme de Soderberg e companhia..
posted by P.R @ 10:32 da manhã   1 comments
quinta-feira, abril 19, 2007
IndieLisboa começa hoje

Começa hoje em Lisboa a quarta edição do festival de cinema independente IndieLisboa. Acabando a 29 de Abril, serão exibidos 223 filmes, com homenagens especiais ao realizador japonês Shinji Aoyama e ao Novíssimo Cinema Alemão.

A sessão de abertura desde ano é com o filme «Life in Loops: A Megacities Remix», de Timo Novotny, com música dos Sofá Surfers. Ao longo de todo o festival serão apresentados vários filmes em ante-estreia, tais como, «Angel», de François Ozon, «Fay Grim», de Hal Hartley, «Shortbus», de John Cameron Mitchell, e «Death of a President», de Gabriel Range.

Tal como o ano passado, o Take a Break tentará, dentro do possível, dar destaque a um festival que pela sua génese e qualidade começa a deixar marca em Portugal.
posted by P.R @ 10:59 da manhã   3 comments
terça-feira, abril 17, 2007
Grandes Momentos | The Big Lebowski
Ele é um dos tipos mais preguiçosos de toda a Los Angeles, o que de imediato o coloca muito bem posicionado no ranking dos tipos mais preguiçosos de todo o mundo. Ele quer de volta o tapete que compunha bem a sala. Ele gosta de caucasians, bowling, citar Lenine, fumar ganza e sonhar com musicais: The Dude.



Aos leitores e ao resto da equipa, peço desculpa pelo atraso da rúbrica desta semana, mas tal deveu-se a uma inesperada falta de tempo. Até ao próximo grande momento!
posted by Juom @ 7:27 da tarde   1 comments
E o novo Hulk é....

Pois, esta é desde já uma das piores notícias do ano. E se o filme promete pouco, deixem-me acrescentar que o realizador será Louis Leterrier, o mesmo de Transporter e o argumentista Zak Penn, o mesmo de X2 mas também de Elektra.

Enfim, um actor que fez Fight Club, 25 Hour, American History X e Primal Fear não precisava disto. Veremos ao menos se sairá dali algo minimante interessante...
posted by P.R @ 10:58 da manhã   1 comments
segunda-feira, abril 16, 2007
Cartaz completo do Super Bock Super Rock
Num ano em que parece que não existirá Palco dos Portugueses, visto estarem bandas portuguesas no cartaz principal, este é o cartaz completo do Supe Bock deste ano.
De todas as bandas que estarão presentes destacam-se na, minha opinião, quer pelo buzz que as rodeia quer pela sua qualidade: Bloc Party, Arcade Fire, Linda Martini e Scissor Martini. Estas serão as quatro bandas que me levarão aos quatros dias de concerto. No entanto, e apesar do meu interesse, penso que este ano o cartaz está mais fraco se compararmos com os outros anos. Mas pronto, já é histórico juntar no mesmo dia Bloc Party e Arcade Fire.

28 de Junho
Metallica
Stone Sour
Joe Satriani
Mastodon
Blood Brothers
More Than a Thousand
Men Eater

03 de Julho
Arcade Fire
Bloc Party
Klaxons
The Magic Numbers
The Gift
Bunnyranch

04 de Julho
The Jesus and Mary Chain
LCD Soundsystem
Maximo Park
The Rapture
Clap Your Hands Say Yeah
Linda Martini
Mundo Cão

05 de Julho
Underworld
Interpol
Scissor Sisters
TV on The Radio
The Gossip
X-Wife
Micro Audio Waves
Anselmo Ralph


E vocês, o que acham do cartaz? Suficientemente forte para merecer uma visita?
posted by P.R @ 12:12 da tarde   7 comments
sexta-feira, abril 13, 2007
The Last Kiss

The Last Kiss é um remake americano de um filme italiano relativamente recente. Com argumento de Paul Haggis (o mesmo de Crash e Million Dollar Baby) e realização do actor Tony Goldwyn (que realizou também a comédia romântica Someone Like You e o pequeno drama A Walk on the Moon), centra-se na história de um jovem de 29 anos para mostrar uma série de situações de crise geracional.
Tendo como protagonista Zach Braff, rosto que conhecemos do fenómeno indie “Garden State”, o filme tem algumas ideias interessantes pela familiaridade que nelas podemos encontrar. Os compromissos, a dificuldade em se tornar “adulto”, a paternidade, o adultério são temas fortes do filme, que se vai desenrolando em situações mais ou menos previsíveis, tendo como centro Braff mas envolvendo ainda as figuras dos seus amigos, namoradas e os pais da sua companheira. Apesar da relativa banalidade que atravessa as situações de todo o filme, o problema está mesmo nas desapaixonadas interpretações que, à excepção de uma espantosa Blythe Danner, pouca humanidade conseguem imprimir às suas personagens.
Há ainda que falar, mas pela positiva, na banda sonora a cargo de Michael Penn e onde figura uma canção da sua esposa, a magnífica Aimee Mann (“Today’s the day” ouve-se a dada altura).
Apesar de tudo, The Last Kiss torna-se uma proposta mais ou menos considerável para um público de jovens adultos que, de alguma maneira, se podem rever nas dúvidas e tentações do protagonista. E, naturalmente, há sempre uma dose de “guilty pleasure” que se pode retirar destas incursões cinematográficas ligeiras nos problemas de ‘crescimento’ que a maioria de nós enfrenta.

posted by H. @ 7:02 da tarde   4 comments
 

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