terça-feira, outubro 21, 2008
Sábado à noite em Lisboa...

21h. Cidade Universitária. Aula Magna. Os amigos e vizinhos da Deolinda aglomeram-se à entrada com um sorrisos nos lábios."Ainda arranjaste bilhete? Sim! Não foi fácil. Mas não podia perder isto". Aproximamo-nos da hora marcada. Indicam-nos a entrada para casa da menina que canta os seus desamores. Entremos.

21h. Lisboa. Coliseu. Relativamente poucos, mas na maioria bons. Bem dispostos, sabem para o que vão. Entra Tiago Bettencourt, dispensou a banda, consciente de que faz uma primeira parte. Sem nada a provar, entra bem disposto, e diverte todos os presentes. Tem sentido de humor. O público aplaude, diverte-se e acompanha os temas. Mas, com todo o respeito, queremos a outra. Queremos Aimee. Está na hora.

A sala está quente, o ambiente muito acolhedor. A adesão foi tanta que tivemos que nos sentar nas últimas filas. Mas não faz mal, o que conta é que estamos na casa da Deolinda. Casa essa, elegantemente decorada com umas molduras com fotos suas, e vários naperons a decorar. O público já bate palmas. 22h10 Deolinda sobe a palco. Ela não é menina de fazer esperar muito os amigos.

Começamos com alguns temas do novo álbum. Há quem lhe chame "Smilers", ou "@#%&*! Smilers", mas o meu favorito é o unrated "Fucking Smilers", expressão que tão ironicamente se aplica ao tom das suas canções e à sua habitual postura tranquila. São "temas dispersos", como lhe chama a singer/songwriter, mas também inconfundíveis na sua autoria. Para os ignorantes que, como eu, ainda não tinham tido acesso ao seu novo trabalho, revelam-se uma bela surpresa. "Stranger into Starman", "Looking for Nothing", "Freeway" e "Phoenix" são, também, uma maravilha para os ouvidos.

O primeiro grande concerto na capital é iniciado por "Mal por Mal". Sempre com uma introdução antes das músicas, porque a Deolinda não quer que nos percamos nas suas aventuras, segue-se a história do rufia em "Fado Toninho" (a primeira ovação da noite), "Contado Ninguém Acredita" e "Quando eu janto em restaurantes", uma ode aos "amigos da onça" dedicada aos seus colegas cantores. 22h30. O público está completamente conquistado. Timidamente, já algumas pessoas se começam a levantar das cadeiras. Está a chegar o Fon-Fon-Fon.

O início é prometedor. Aimee Mann não é, como se esperava, particularmente explosiva em palco, nem os seus concertos devem muito ao conceito de espectáculo. Há, isso sim, um tom acolhedor, sóbrio e bastante elegante em cada canção. O público gosta, e aplaude fervorosamente no final de cada canção. Aimee agradece, visívelmente satisfeita. Seguem-se talvez os temas mais famosos, que trazem colados a sí o filme de Paul Thomas Anderson. Fala-se de "Magnolia", claro, e canções como "Save Me" e "Wise Up" recordam o momento em que tantos de nós ficamos a conhecer-lhe o nome, e por ela nos apaixonámos.

A paixão pelo músico que toca Tuba na filamórmica do bairro é cantada a centenas (milhares?) de vozes. Todos conhecem a música que apresentou os Deolinda ao país, país esse que eles tão bem encarnam e cantam. Ana Bacalhau, graciosa e expevitada, dança ao som do seu ritmo, enquanto Pedro da Silva, José Luís Martins e Zé Pedro Leitão continuam concentrados nas suas sonoridades. A música termina com um bem alto ... "que se lixe o romantismo". Mas não é bem assim. "O Fado não é mau" e principalmente "Entre Alvalade e as portas de Benfica" demonstra que a Deolinda muito gosta de se apaixonar.

Tudo prossegue, tranquilamente. A banda é segura, e as performances mantêm sempre a qualidade lá em cima. Seguem-se outros temas, revisitando álbuns antigos ou apresentando o novo trabalho. São quase todas canções pop mergulhadas em tristeza, mas que deliciam os fãs. Outros pontos altos, como "31", "Little Tornado" ou "Red Vines" chegam a provocar o arrepiozinho. Nomeadamente a última, em que a artista dispensa a banda por uns segundos e, sozinha com a guitarra, espalha as suas palavras doces. Estamos perto do fim, e já com saudades.

Segue-se a canção que deu nome ao álbum, Canção ao Lado, e o Brasil chega à Aula Magna, através dos desabafos de uma "Garçonete da casa de fado". Depois do inédito "Fado Notário", a Deolinda apresenta o seu "Movimento Perpétuo Associativo", que muitos desejam transformar em hino. Cantado a plenos pulmões por todos, fechava assim o primeiro ciclo. A Deolinda estava bastante orgulhosa e agradeceu a todos. Ainda haviam de voltar. 3 vezes. Os amigos e vizinhos estavam satisfeitos e orgulhosos, porque se uma vida não cabe entre Alvalade as portas de Benfica, cabe certamente nas letras e na música da nossa querida Deolinda.

Concluia-se uma noite em cheio. Depois de terminado o alinhamento principal, houve ainda tempo para um regresso, com "Magnolia" novamente no centro das atenções, ao som de "One" e de "Deathly", excelente forma de terminar o serão. Os aplausos eram contínuos, entre e durante alguns temas, e Aimee sempre sorridente (e bastante mais bonita ao vivo, diga-se) agradecia, surpreendida mas satisfeita. Tudo acabou, mas nem mesmo o trânsito infernal que nos aguardava cá fora fez esquecer o prazer de a ouvir. Que volte novamente para o ano. Nós agradecemos.



Deolinda por P.R
Aimee Mann por Paulo

Fotos: Blitz
posted by P.R @ 9:53 da manhã  
9 Comments:
  • At 11:12 da manhã, Blogger not_alone said…

    É por estas coisas que eu tenho muito orgulho no nosso blog e em quem faz parte dele. Parabéns aos dois. Estou a ver que foi um sábado à noite animado. Infelizmente não estive em nenhum dos dois concertos. Felizmente, não foi de todo uma noite perdida. :) Abraço.

     
  • At 1:45 da tarde, Blogger M. said…

    Oh vizinho, ora bom dia.. como vai a saudinha, e eu não sei falar de amor! Bonita iniciativa do tab, não menos bonito concerto dos Deolinda. P.R. é sempre um prazer partilhar um evento cultural consigo :)

     
  • At 6:17 da tarde, Anonymous miguel said…

    Que inveja tenho eu de não ter estado no Coliseu no sábado à noite. Já o ano passado deixei a Aimee escapar e este ano lá foi outra vez, enfim, da próxima não me escapará.
    Quanto aos Deolinda, acho que não se justifica o alarido todo em seu torno, apesar de terem potencial.

     
  • At 7:13 da tarde, Blogger Ana Silva said…

    Eu estive lá(!), e foi tão bom! Concordo com o Miguel, acho que de facto a Deolinda começa a tornar-se um «fenómeno», no entanto, justificado. Na minha opinião, têm muito potencial, e acredito que todo o buzz que tem surgido à sua volta se deve à perfeição das músicas (letras) e ao facto de serem simples leituras do dia-a-dia. A forma revigorante e intensa como cantam os dias que passam e os "episódios da vida alheia" é fantástica.
    A Deolinda faz-nos sentir bem com a vida, nos dias bons e nos menos bons.
    Parabéns à dupla pelo post :)

     
  • At 9:00 da tarde, Anonymous Rita said…

    Também concordo com a Ana e sinceramente não compreendo porque é que começa a haver tanta gente a comentar depreciativamente o alarido à volta dos Deolinda. No meio de tanto alarido para tanta coisa má, haja alarido para o que é bom!! É um complexo do catano esta coisa do "desconhecido é que é bom"...

     
  • At 9:04 da tarde, Anonymous Rita said…

    ...para não dizer preconceito...

     
  • At 10:05 da tarde, Blogger P.R said…

    Para que conste, acho as letras da deolinda das coisas mais inspiradas que surgiram ca no burgo nos ultimos tempos...

     
  • At 11:16 da tarde, Anonymous miguel said…

    Só acho que não se justifica o fenómeno nem em disco nem ao vivo, é uma opinião. Quanto à coisa do "desconhecido é que é bom" deve ser um complexo do catano para quem sofre dela, de facto.

     
  • At 7:03 da tarde, Blogger P. said…

    tanto de aimee mann como de deolinda, aprecio pouco mais do que duas ou três canções. mas a ideia para o texto, e como o escreveram, isso sim merece os parabéns.

     
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