sexta-feira, março 31, 2006
Aimee Mann | The Forgotten Arm

Primeiro que tudo, uma advertência: eu sou suspeita para falar e escrever sobre Aimee Mann, simplesmente porque a tenho como a mais perfeita tradutora da beleza existente na tristeza humana. Tenho-a como, em suma, a minha singer/songwriter de eleição. Ainda assim tentarei fazer uma crítica isenta do seu último álbum.

«The Forgotten Arm» já saiu em Maio de 2005 mas creio não ser tarde para escrever sobre ele. Aimee Mann já fazia música há muitos anos quando Paul Thomas Anderson pegou nas suas canções e a partir delas criou aquele que é, a meu ver, o melhor filme da década de 90 e certamente um dos melhores de sempre: Magnólia. O filme valeu-lhe uma nomeação para os Óscares pelo brilhante tema "Save Me" e catapultou para um conhecimento mais alargado a obra de Mann.

Após o lançamento em 2002 de «Lost in Space», onde foi beber inspiração em casos de dependências várias e de o ano passado editar o dvd «Live at St Ann's Warehouse», Mann editou em 2005 «The Forgotten Arm». Após alguma dúvida quanto ao título do álbum, debatida pelos fãs em fóruns na net, «King of the Jailhouse» foi preterido em favor de «The forgotten arm». O disco é toda uma sucessão de canções que ao invés de serem independentes - como habitualmente sucede - contam uma só história, interligando-se entre si. Um boxeur que cai em desgraça e se refugia no alcoolismo é o mote para um trabalho formalmente diferente no universo de Aimee Mann mas que recupera a sua tendência para escrever e cantar histórias de quedas e abismos. O disco diz-nos que "never before has she told a tale so lonely and sad or created characters so compelled and compelling as those in The Forgotten Arm". Pode soar a exagero e não devemos fiar-nos por inteiro na frase promocional.

Aimee Mann recupera no seu disco muita da sonoridade dos seus primeiros trabalhos, «Whatever» (1993) e «I'm with stupid» (1995), ainda com laivos da herança 80's da sua banda anterior, Til'Tuesday. A meu ver o seu trabalho melhor conseguido é indubitavelmente «Bachelor nº2» (que abarca algumas canções da BSO de Magnólia), bem secundado por «Lost in Space», encontrando-se o teor das letras bastante próximo e exiamente polido em tiradas ora realistas ora metafóricas ímpares na voz arrastada, quase agonizante, de Mann. Em «The forgotten arm» tudo o que é dito é o que é suposto dizer-se. As palavras encerram em si a quase totalidade da narrativa (se é que podemos falar em narrativa em música) e apesar da história pessoal contada em «The forgotten arm» ser a história de falhanços e pequenos ressurgimentos de meia humanidade (para não dizer toda), nem sempre a dimensão universalista emerge em todo o esplendor, como nos dois albuns anteriores (estou a excluir o cd ao vivo que acompanha o dvd).
Faixas a reter: "Dear John" (1), "King of the Jailhouse" (2), "I Can't Get My Head Around It" (5), "Video"(7) e a tristíssima mas mais bela de todas, "That's How I Knew This Story Would Break My Heart"(9). Mas o cd deve ser ouvido na íntegra para compreender a intenção de Mann contar uma só história dividida em várias.

Em suma, uma obra peculiar na discografia de Aimee Mann mas ainda incapaz de superar os seus melhores momentos musicais.

Classificação:
posted by H. @ 7:15 da tarde   1 comments
Filmes em 30 segundos
Cansados de ver tantos filmes? Gostavam de ver um pequeno resumo dos grandes filmes sem ter de esperar mais de 100 minutos para o seu final? Pois bem, agora já podem. A Angry Alien Productions lançou recentemente clips de 30 segundos onde condensam os principais momentos de grandes êxitos do cinema. No entanto, a história é contado de uma forma original e hilariante. Não percam! Podem ver o resumo do Brokeback Mountain aqui, do Exorcista aqui, para verem o video genial do Titanic carreguem aqui e para verem o do Pulp Fiction é aqui. Caso fiquem fãs, como eu, tem ainda o War of the Worlds aqui e do Alien aqui.

p.s - para quem não viu algum dos filmes, não aconselho porque, como devem imaginar, a história é revelada na íntegra.
posted by P.R @ 6:38 da tarde   1 comments
quinta-feira, março 30, 2006
Video da Semana | Radiohead | Just
Por esta altura já devem saber que os Radiohead vão fazer a banda-sonora do filme A Scaner Darkly, de Richard Linklater. Por esse motivo, e porque os Radiohead são uma das minhas bandas favoritas, fica a recordação do video Just, para o album The Bends. Um vídeo memorável.


not_alone

posted by P.R @ 10:49 da manhã   1 comments
sábado, março 25, 2006
Colour me Kubrick

Stanley Kubrick, um dos maiores e melhores realizadores de sempre, nunca foi uma verdadeira celebridade. De facto, optando por um low-profile absoluto, poucos foram aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer. Chegando mesmo ao extremo de nem sequer se conhecer a cara do realizador, a verdade é que isto não o impediu de se tornar um dos ícones do cinema mundial. Mas, o que é que isto tem a ver com o filme? Tudo. Colour me Kubrick é a história de Alan Conway, um homossexual alcoólico que durante anos se fez passar por Stanley Kubrick, conseguindo ludibriar toda a gente, desde indivíduos desconhecidos até actores, cantores e críticos de cinema. Confesso que, ao escrever estas linhas, até a mim o filme me parece interessante, e até podia ser, se rescrevem-se o argumento, se mudassem o realizador, os figurinos, os actores secundários.... Enfim, tudo, exceptuando talvez John Malkovich.

Realizador por Brian Cook que, curiosamente, conviveu com Kubrick enquanto assistente de realização de Eyes Wide Shut, Colour me Kubrick é de uma nulidade mostruosa e de uma falta de gosto gritante. Com laivos obscenos de ridicularidade, o filme aposta em elementos presentes na filmografia do realizador de 2001 Odisseia no Espaço, mas que mais não são que um insulto à genialidade de Kubrick. Na verdade, sinto-me revoltado por tamanha displicência na forma como se aborda, por pouco que seja, a figura de Kubrick. E que dizer da cena em que Alan Conway conhece Lee Pratt? O exemplo do que não deve ser cinema.

No meio desta desinspiração é díficil encontrar algo que se esteja num patamar aceitável, mas a verdade é que a actuação de John Malkovich está muito boa. Apesar de ser por vezes excessivo nos maneirismos, a verdade é que o actor convence tudo e todos. Não é de longe o melhor papel da sua carreira, mas é sem duvida um papel bem conseguido.

Dito isto, faltará acrescentar alguma coisa? Penso que não, até porque será difícil transmitir o quanto me senti ultrajado, revoltado e chocado com o insulto a Kubrick que este filme revela ser.


Classificação:
Pedro Romão
posted by H. @ 10:29 da manhã   3 comments
quarta-feira, março 22, 2006
Acontecimento
Imbuído no espiríto brasileiro (neste momento, para vossa inveja, devo estar numa das belas praias do nordeste brasileiro a beber uma caipirinha), deixo-vos um poema fabuloso de um nos maiores autores brasileiros: Vinicius de Moraes. Espero que gostem.

Acontecimento

Haverá na face de todos um profundo assombro
Na face de alguns risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades...
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer...
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm ás vezes as pérolas mais belas

Vinicius de Moraes

Pedro Romão
posted by H. @ 12:57 da tarde   1 comments
domingo, março 19, 2006
Ópera do Malandro

Terminaram ontem os espectáculos da Ópera do Malandro em Lisboa, que a partir de dia 10 de Março iluminaram o Coliseu dos Recreios. O musical em língua portuguesa de maior sucesso de sempre, como foi promovido, esteve pela segunda vez no nosso país, na sequência de muitos espectáculos esgotados no ano passado.
A obra, levada ao palco por Charles Möeller e Cláudio Botelho, é uma conjugação de canções inspiradas, teatro dramático, alguma comédia e muita crítica de costumes, cujas letras e músicas – muitas imortalizadas por diversas vozes ao longo de décadas - são da autoria de Chico Buarque, figura cimeira do panorama cultural brasileiro. Chico Buarque, que escreveu a Ópera do Malandro em 1978, ter-se-á baseado na Ópera dos mendigos (1728), de John Gay, e na Ópera de três vinténs (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill.
A história de Max Overseas, o malandro sedutor do título, que se casa em segredo com Terezinha, a filha do seu rival Fernandes de Duran, e das peripécias e consequências daí advenientes é o plano central para um discurso em que a decadência e o glamour andam lado a lado. O mundo de Max e Duran é um submundo de marginais da Lapa do Rio de Janeiro dos anos 40, onde desfilam ladrões e prostitutas, onde há gritos e choros e tiros. Mas é um mundo colorido e cantante o que nos mostram, pleno de um realismo de linguagem aliado à composição artística das coreografias, cenários e canções, afinal um mosaico cultural elucidativo do Brasil.
Um Brasil subjugado pela ditadura militar que assim metaforicamente era criticado. Está lá a crítica ao capitalismo, à ambição, à repressão, à corrupção.
A qualidade vocal dos participantes era imensa, destacando-se Lucinha Lins como mãe de Terezinha e Fernando Eiras como Gini.
Contando com 20 actores, cantores e bailarinos e uma orquestra de 12 músicos tocando ao vivo, esta produção é já um caso ímpar de sucesso no Brasil e em Portugal, onde após Lisboa segue esta semana para o Porto.
Está também à venda um cd com os temas da peça, cantados pelos actores.

Classificação:
posted by H. @ 7:35 da tarde   1 comments
sexta-feira, março 17, 2006
David Hasselhoff + Música = Desastre
Lembram-se de David Hasselhoff? O Mitch Buchannon de Baywhatch e o Michael Knight de Knight Rider? Pois é, depois de alguns períodos mais conturbados o senhor Hasslhoff resolveu enverdar por uma carreira musical. Para e tal, e como qualquer cantor que se preze tem um videoclip para o seu single, também ele resolveu apresentar ao mundo a sua música. Resultado? O videoclop mais medonho, ridiculo e, simultaneamente, mais hilariante de sempre. Com dúvidas? Então, liguem as colunas, carreguem no stop da nossa rádio blog, cliquem no play e constatem com os vossos próprios olhos...

posted by P.R @ 5:17 da tarde   1 comments
quinta-feira, março 16, 2006
10 filmes e uma apresentação
Convidada pelo not_alone em nome de todos os membros deste projecto para me juntar às suas fileiras devido a baixas na equipa, venho por este meio expressar a minha gratidão e sentimento de honra por me considerarem apta a contribuir para um blog cultural ao qual reconheço muita qualidade.
De todas as áreas culturais talvez o meu fascínio penda mais para o Cinema, por isso iniciarei a minha participação no Take a Break indicando, à similaridade dos membros deste blog, 10 filmes. 10 filmes que não ouso pretender como os melhores de sempre, mas como os que sinto mais relevantes no meu percurso cinéfilo pessoal.

10 | Jules et Jim, François Truffaut

9 | Psycho, Alfred Hitchcock

8 | Edward Scissorhands, Tim Burton

7 | The Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michael Gondry

6 | Magnolia, Paul Thomas Anderson

5 | The Misfits, John Huston

4 | Lost in Translation, Sofia Coppola

3 | Citizen Kane, Orson Welles

2 | Rebel Without a Cause, Nicholas Ray

1 | The Dreamers, Bernardo Bertolucci



Reconhecendo que Os Sonhadores está longe de almejar a um lugar cimeiro de entre as obras imortais do Cinema, foi até hoje a obra mais perfeita que vi de um cineasta que muito me fascina, um retrato das ideias e ideais de juventude, o retrato simultaneamente conjuntural (do Maio de 68) e intimista (a odisseia dos três protagonistas) e uma homenagem não só ao Cinema mas a todos os verdadeiros amantes desta arte singular.

Helena F.

posted by H. @ 9:06 da tarde   5 comments
quarta-feira, março 15, 2006
Coisa Ruim


Quando se vê um bom filme, ficamos sempre com a esperança de que o próximo seja tão bom ou melhor. Quando se vê um bom filme português essa sensação ainda se acentua mais. Felizmente, Coisa Ruim não me desiludiu. Confesso que tinha grandes expectativas em relação ao filme, principalmente pelo tipo de argumento e pelo seu autor, e de facto, é um filme muito bom e, na minha perspectiva, muito bem feito.

Começando pelo tipo de filme que se trata, é impressionante como uma história aparentemente normal nos é contada e mostrada de forma a causar-nos alguns arrepios na espinha. O que vai crescendo em nós durante o filme é uma espécie de inquietude, uma sensação ondulante, que ora nos faz pensar que realmente é tudo obra imaginária, ora é a pura realidade do misticismo e da religião, e consequentemente, da pena dos pecadores. Quer queiramos quer não, Coisa Ruim passa também por uma forte crítica ao religioso, à função da Igreja, às verdadeiras funções paroquiais, às crenças que por vezes julgamos tolas e sem fundamento, mas que para muitos são a sua razão de viver. Assim, através de muitos dos diálogos entre as personagens, podemos confrontar o racional versus o emocional, de tal forma que damos por nós a tentar situar-nos, a pensar até que ponto somos levados por aquilo em que acreditamos, ou se, contrariamente, somos “independentes de alma e espírito” e só acreditamos no que queremos.

De facto, é através das diferentes personagens que nos vamos envolvendo no filme, sendo impossível não apontar alguns desempenhos que, francamente, me surpreenderam, como aconteceu acima de tudo com Afonso Pimentel. A sua personagem, que à partida se assume como um jovem normalíssimo, com vontades e desejos contrários às dos seus pais, torna-se de tal modo absorvente que não conseguimos desligar-nos dele. A sua intensidade, a complexidade de espírito, a ambiguidade da postura, a força do olhar e o discurso tão céptico e seguro, deixam-nos estarrecidos. Além disso, também Manuela Couto e Adriano Luz estão muito bem, tendo diálogos muito bem conseguidos e, na minha opinião, muito ricos, demonstrando as inquietações de mãe e a postura forçada do pai de se manter despreocupado e muito “terra a terra”.

Por outro lado, também a figura do Padre Vicente, desempenhado por José Pinto é fundamental na história, que equilibra a balança com uma convicção extremamente forte nos mistérios de Deus, que movem tudo à sua volta, e deixando sempre em aberto a crença de que todos nós podemos voltar um dia, independentemente de como voltamos ou para que voltamos.

Por fim, no que diz respeito à realização, está fantástica. Existem cenas muito boas, muito bem pensadas e que encaixam perfeitamente. Os elementos escolhidos como peças centrais do filme são captados de uma forma tão meticulosa e especial, que de facto, uma simples janela, ou um copo de vidro podem fazer toda a diferença. Também a casa é extraordinária, assumindo-se quase como uma personagem, tal são os seus contornos estranhos e as suas cores tão insípidas e envelhecidas, rodeada de mato como quem se quer proteger e isolar do mundo.

Gostei muito do filme essencialmente por não ser como todos os outros que vivem do típico ranger da porta ou das músicas acutilantes. É, efectivamente, do argumento e das personagens que se constrói este filme, esses sim acutilantes e de grande qualidade. Além disso, é também curioso como este filme, sendo tão incisivo na sua crítica pela clareza do texto, consegue, ao mesmo tempo, não tratar o Diabo como sendo qualquer um. No fundo, até na ficção a inquietude permanece sempre… Não percam.


Classificação:
posted by Ana Silva @ 3:11 da tarde   1 comments
segunda-feira, março 13, 2006
History of Violence



David Cronenberg é um dos realizadores mais conceitados mas, simultaneamente, mais controversos do cinema mundial. Conhecendo pouca da sua obra, a verdade é que a recepção no festival de Cannes foi bastante positiva devido ao facto de History of Violence ser considerado um dos filmes mais acessíveis do realizador. Não pensem, contudo, que se trata de um filme fácil, pois não é.

History of Violence é a história de Tom Stall, um homem bem casado, dono de um café que um dia se torna famoso por enfrentar dois criminosos que, assaltando o seu café, põe em risco a sua vida e a dos seus empregados. Sendo considerado um herói nacional, Tom é motivo de bastante curiosidade pela imprensa que vêm nele um exemplo a seguir. Contudo, em virtude de tamanha atenção mediática, surgem dois homens dizendo conhecer Stall há algum tempo, onde este fora um perigoso criminoso. Verdade ou Mentira? Confusão ou Vingança? É deste ponto que o filme parte, e é a partir daqui que o filme começa a ganhar contornos de obra-prima.

A nova obra de Cronenberg é um filme que se centra na ambiguidade, nunca dando contornos muito nítidos sobre aquilo que estamos a ver. E nisso, o Poster do filme é extraordinário, na medida em que consegue espelhar de forma incrível o que se passa durante o filme. De facto, a arma, escondendo parte da cara de Mortensen, revela-nos um lado obscuro desconhecido da personagem que é explorado de forma exímia por Cronenberg. Na verdade, o tentar esconder dessa “segunda cara” espelha nitidamente a ideia de “sonho americano”, a ideia de uma segunda oportunidade que a vida nos dá. No entanto, o realizador dá-nos a sua visão pessimista, demonstrando que mais tarde ou mais cedo o passado regressa para nos responsabilizar pelos actos que nós já julgávamos perdidos no tempo. É exactamente neste confronto com o passado que o filme é transcendente. A carga emotiva presente em quase todas as cenas dos filmes é incrível e nós, telespectadores, conseguimos sentir a dor, a raiva e o delírio das personagens, como se estas fossem extensões de nós mesmos.


Porém, nesta verosimilhança, os grandes responsáveis são os actores e o realizador de History of Violence. Viggo Mortensen tem aqui o papel da sua vida. Longe do insípido Aragon, o actor revela uma contenção dramática surpreendente tendo em conta o que tínhamos visto dele. Este é um dos pontos mais positivos de Cronenberg, que consegue retirar dos seus actores o melhor deles mesmo. Exemplo categórico é actuação de Maria Bello. Sendo escandalosa a sua não nomeação ao Óscar, a verdade é que Bello tem um desempenho devastador enquanto esposa que redescobre o seu marido. Em termos cinéticos muito bem, o seu desempenho destaca-se pela expressividade dramática da actriz, que tem aqui o melhor papel da sua carreira e, seguramente, um dos melhores do ano.

No que se relaciona com Ed Harris, este está igual a si próprio, ou seja, um grande desempenho de um excelente desempenho. Contudo, William Hurt consegue roubar todas as atenções com a sua actuação. Dono de uma insanidade controlada pincelada com um humor sarcástico, a sua composição é cabal. Sendo uma figura atípica, tendo em conta os esquemas utilizados em personagens semelhantes, o seu desempenho destaca-se de forma natural e a sua nomeação surge como inevitável.

Por último, mas não menos importante – David Cronenberg. De uma solidez incrível, e de uma visão assustadoramente real, Cronenberg realiza este filme de uma forma exímia, conseguindo mexer com os sentimentos dos espectadores. Uma das cenas mais marcantes é, de facto, a cena final do filme. Excluindo-se os diálogos, a esta cena é incrível na forma como consegue comunicar uma miscelânea de sentimentos que tão bem são transmitidos pelos actores e captado por Cronenberg. Ficando, na minha opinião, na galeria das melhores cenas de sempre, esta é o culminar de uma extraordinária obra-prima.

Por último, uma reflexão: Será History of Violence assim tão violento? Seguramente que o é, não tanto pelo sangue que demonstra, mas pela dor que se sente.

Classificação:
posted by P.R @ 10:21 da tarde   3 comments
Video da semana | Muse | Hysteria
Os Muse são uma das mais frutiferas bandas do rock alternativo. Sem serem extraordinariamente originais conseguem ter um som muito próprio e que pega expecialmente no estilo que os Radiohead tornaram popular em The Bends e levam-no para um nível muito seu. Para além disso, Matthew Bellamy é um dos homens com mais estilo no meio musical. Por estas razões e mais algumas, Muse - Hysteria, numa versão inédita em portugal do videoclip.


posted by not_alone @ 9:11 da tarde   1 comments
sexta-feira, março 10, 2006
Os 10 melhores filmes de sempre...
Tal como a Rita D., decidi fazer a minha lista dos 10 melhores filmes de sempre. Estas listas são sempre um pouco limitativas (já para não falar na dificuldade de as fazer) porque temos de abdicar de alguns filmes que gostamos muito. De qualquer forma aqui vai:

10 | Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Michel Gondry

9 | Million Dollar Baby, Clint Eastwood

8 | Oldboy, Park Chan-wook

7 | Laranja Mecânica, Stanley Kubrick

6 | Dr. Strangelove, Stanley Kubrick

5 | Full Metal Jacket, Stanley Kubrick

4 | Seven, David Fincher

3 | The Godfather I, II e III, Francis Ford Coppola

2 | Dogville, Lars Von Trier

1 | Fight Club, David Fincher



Mais do que um filme, Fight Club é um statement. Um grito de revolta de uma geração que não gosta do caminho que o mundo está a tomar e que pretende fazer alguma coisa acerca disso. É um murro no estômago para acordarmos de uma vez para a vida. É preciso sentir, nem que seja dor.
posted by not_alone @ 5:48 da tarde   2 comments
segunda-feira, março 06, 2006
Óscars


Nesta altura, já todos os interessados sabem os resultados dos óscars, por isso não é pertinente apresentar aqui a lista de galardoados. Numa noite extremamente atípica, em que não houve nenhum filme consagrado com excelência, a verdade é que Crash sai, obviamente, como o filme vencedor da noite. Supresa? Sinceramente, nem por isso. De facto, em conversa com muitas pessoas sempre afirmei que Brokeback Mountain não ganharia Melhor Filme e Melhor Realizador. E se a vitória de Ang Lee era incontestável, o troféu para melhor filme não era assim tão certo. Obviamente que as hipóteses de Brokeback Mountain eram maiores que as de Crash (afinal foi essa a minha previsão), mas o filme de Haggis era o preferido sentimental de muitos membros da Academia. Assim, na altura da votação parece-me que o coração pesou mais que a razão. Não me parece, assim, que Brokeback tenha perdido por preconceitos da Academia pois, caso tal fosse verdade, o óscar de melhor argumento não tinha ido para o filme de Ang Lee. E admito, para mim não foi assim uma injustiça tão grande. Injustiça foi Munich ter perdido, mas não entremos por aí.

Em relação aos actores, Phillip Seymour Hoffman e Rachel Weisz foram vencedores justíssimos, isto tendo em conta os nomeados, porque na categoria de melhor actor o homem que deveria sair dali com a estatueta era Eric Bana. Se estes actores ganharam bem, o mesmo não se pode dizer dos vencedores das categorias de Melhor Actor Secundário e Melhor Actriz. Reese Whiterspoon esteve muito bem enquanto June Carter mas era Felicity Huffman quem devia de ter sido vencedora pelo seu fantástico papel como transsexual. Na mesma perspectiva, George Clooney ganhou por compensação, tal como este diz quando se recebe o seu óscar. Não podendo ganhar a Ang Lee, e sendo este o ano de Clooney, a Academia resolveu dar-lhe injustamente o Óscar de Melhor Actor Secundário por Syriana, sendo que o justo vencedor seria, na minha opinião, Jake Gyllenhaal.

Umas palavras ao anfitrião da noite - John Stewart. Uma apresentação muito boa que foi crescendo à medida que a cerimónia se desenrolou e que culminou com gags absolutamente geniais, desde a brincadeira com a música vencedora da noite até à piada politicamente incorrecta sobre Russel Crowe.

Relativamente às previsões que aqui foram feitas na véspera da cerimónia, deixo alguns dados interessantes:
  • Relativamente as nossas previsões, a Ana acertou em 61% dos prémios, eu, Pedro Romão, acertei 71% e o not_alone previu correctamente 52% dos vencedores.

  • Contudo, em relação às nosssa preferências, a questão altera-se um pouco. Assim, aquele que mais insatisfeito ficou com a cerimónia, com apenas 28% dos vencedores serem do seu agrado foi, de facto, o not_alone (como podem ver aqui). Relativamente à minha pessoa, fiquei contente com 38% dos vencedores. Assim sendo, a Ana acabou por ser aquela cujas preferências acabaram por conseguir ganhar o Óscar (52%).


posted by P.R @ 11:00 da tarde   1 comments
domingo, março 05, 2006
Óscars: Previsões
Os Óscares são e continuam a ser os principais prémios da indústria cinematográfica. De facto, não só a transmissão dos prémios é um dos espectáculos mais vistos em todo o mundo, como tem uma importância decisiva na carreira de qualquer galardoado.

Por outro lado, as expectativas em relações aos prémios são sempre bastante elevadas, sendo as previsões um acontecimento frequentemente na vida de quem segue com bastante atenção o cinema mundial. Assim, alguns colaboradores do Take a Break juntaram-se e fizeram as suas próprias previsões. Obviamente que não existem dados científicos que comprovem a sua veracidade, não passando de meras especulações, mas também convenhamos, prever é especular.

Ficam assim expostas as nossas previsões, ficando também o desafio para deixarem aqui os vossos palpites.



posted by P.R @ 12:15 da manhã   7 comments
sábado, março 04, 2006
Os 10 melhores filmes de sempre...
10 | A Viagem de Chihiro, Hayao Miyazaki

9 | Vertigo, Alfred Hitchcock

8 | Magnolia, Paul Thomas Anderson

7 | Persona, Ingmar Bergman

6 | Million Dollar Baby, Clint Eastwood

5 | Ivan, O Terrível, Serguei Eisenstein

4 | Dogville, Lars Von Trier

3 | Big Fish, Tim Burton

2 | Lágrimas e Suspiros, Ingmar Bergman

1 | Mulholland Drive, David Lynch



Mulholland Drive é um filme marcante, de grande sentido estético, um filme poderoso a todos os níveis. Intenso desde o primeiro minuto, com um enredo complexo e de difícil interpretação, suscita interesse de forma automática. O esforço em busca da interpretação perfeita alia-se ao prazer de ver interpretações brilhantes, uma realização genial e uma fotografia belíssima. É mais um filme brilhante de David Lynch...
posted by Rita D. @ 8:44 da tarde   1 comments
sexta-feira, março 03, 2006
Capote



Este ano a Academia parece ter desempenhado bem o seu papel. De facto, todos os filmes nomeados ao galardão máximo da cerimónia dos Óscares são de qualidade indiscutível. Obviamente que cada filme exerce uma força distinta em cada um de nós, e que cada um tem o seu filme preferido, mas este ano a diferença qualitativa entre todos os filmes nomeados é menor que em anos anteriores. Assim sendo, e no que diz respeito a Capote, a sua nomeação não é chocante.

Capote vinha catalogado desde há bastante tempo como o filme onde Phillip Seymour Hoffman teria o seu primeiro papel de protagonista. Deixando os críticos americanos completamente extasiados com a sua actuação, Hoffman começou a perfilar-se como um sério nomeado ao Óscar e começou a ganhar todos os prémios prémios de actuação. Hoje, a três dias dos Óscares, só uma reviravolta não só surpreendente como chocante lhe tirará a vitória. Com isto não quero dizer que Hoffman é o meu preferido, porque não o é, mas de facto ninguém espera outro resultado no domingo à noite.

Apesar da sua actuação ser em termos miméticos e técnicos absolutamente avassaladora, o principal ponto positivo do filme é existir. Isto é, o filme não se limita a ser cenário para a consagração do seu actor principal. Parece-me que o retrato de Capote e a actuação do actor que lhe dá vida é apenas um elemento fílmico presente e não o único. Ou seja, o actor é um dos suportes do filme, e não o oposto. De facto, na minha opinião, um filme nunca deverá existir apenas com artífice para uma grande actuação (como acontece por exemplo em Transamerica) e, nisso, Bennett Miller fez um grande trabalho.

Com efeito, ao posicionar o enfoque do filme no dilema de Capote em acabar o seu livro tendo em conta a situação dos dois prisioneiros e na relação que estabeleceu com eles, principalmente com Perry Smith, o filme avança para uma atmosfera mais perturbadora que em tudo beneficia o filme. Por outro lado, o filme demonstra coragem, na forma como nos revela um Capote egoísta, egocêntrico e desequilibrado emocionalmente, o que nem sempre acontece em biopics do género. De facto, aqui não há nenhum pudor em retratar os defeitos e imperfeições de um dos escritores mais consagrados da literatura norte-americana. Para tal, o filme centra-se igualmente nas relações sociais que Capote estabelece com as pessoas que circulam à sua volta, em especial Harper Lee (Catherine Keener) e Jack Dunphy (Bruce Greenwood), que protagonizam um dos diálogos mais reveladores da essência de Capote, quando Lee confidencia num tom nitidamente irónico que Capote estava a apaixonar-se por si mesmo.

Relativamente ao trabalho de Bennett Miller, parece-me que a sua nomeação é um pouco exagerada, principalmente num ano em que Woody Allen e Cronenberg estiveram em grande estilo. Pautado por uma enorme discrição na forma como filma, a verdade é que nem sempre esta fórmula funciona, uma vez que gera um certo distanciamento com as personagens. Contudo, por vezes isso até se torna pertinente nalgumas cenas, principalmente nos pequenos separadores entre cenas, onde a câmara deambula em planos panorâmicos da vila onde a família que deu origem ao livro foi assassinada, que demonstra o desencanto, solidão e até mesmo ambiguidade com a qual o filme se pauta.

Um último apontamento em relação aos actores. Mais uma vez, é de sublinhar a composição fantástica de Hoffman que não só se limita a imitar os trejeitos, como consegue dar alguma densidade à personagem e torná-la verosímil, algo que se deve sublinhar pois um actor menos talentoso facilmente se resvalava para uma actuação caricatural, em função da própria pessoa que era Capote. Mas se Hoffman está genial, o mesmo não se poderá dizer Catherine Keener, cuja nomeação é inexplicável. De facto, não existe nada de cativante na sua actuação, limitando-se a cumprir aquilo que de si era esperado. Na verdade, tal facto adquire maiores dimensões quando existe uma certa Maria Bello numa das maiores e melhores actuações do ano. Por outro lado, se Keener é sobrevalorizada, parece-me igualmente que o desempenho de Clifton Collins Jr passou demasiadamente despercebido, uma vez que a sua composição de Perry Smith consegue ser muito satisfatória. Num ano menos rico em personagens secundárias masculinas, de certeza que o seu nome teria sido ouvido no Kodac Theatre aquando das nomeações para os Óscares.

Assim sendo, Capote cumpre com brio aquilo que pretendia ser. Tendo como principal alicerce a actuação histórica de Phillip Seymour Hoffman, a verdade é que o filme consegue a espaços libertar-se do "perigo" de ser subalternizado por um actor, gerando momentos dramáticos muito bem conseguidos, muito devido a Capote, uma personalidade extremamente cativante e dramaticamente poderosa.

Classificação:
posted by P.R @ 9:59 da manhã   0 comments
quinta-feira, março 02, 2006
A um poeta
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental

Um dos meus poemas preferidos, da autoria de Antero de Quental. Não sei porquê, mas hoje acordei a pensar nele...
posted by P.R @ 10:31 da manhã   0 comments
quarta-feira, março 01, 2006
Red House Painters - Down Colorful Hills


Os Red House Painters são uma banda muito especial para mim, marcaram-me durante um importante período com o álbum Songs for a blue Guitar (um dos mais fabulosos albuns de todos os tempos). Recentemente decidi voltar a descobri-los e ouvi pela primeira vez o seu primeiro cd, Down Colorful Hills, e percebi porque me tinha apaixonado pela música da banda da primeira vez.

Há algo de muito genuíno na forma como as músicas são construídas, transparecem o facto de a banda fazer música pelo simples prazer de tocar. Não há preocupações com as vendas, com os singles de 3 minutos, fazem música porque ela existe dentro deles.

Mark Kozeleck é a alma da banda, a sua voz envolve-nos nas suas extraordinárias letras e composições e sabemos à partida que estamos perante um génio. Não consigo deixar de o comparar com David Fonseca e com os extintos Silence 4 (a comparação não é assim tão disparatada se vos disser que os Red House Painters foram uma das maiores influências dos Silence 4 no ínicio de carreira), a ingenuidade e dedicação de ambos é o que torna as suas músicas tão especiais.

O vocalista dos Red House Painters tem algo de português dentro dele (não é por acaso que a editora que criou se chama Caldo Verde), a melancolia e a saudade, esses sentimentos tão nossos, passeam-se pela música da banda embalando-nos e ao mesmo tempo acordando-nos para memórias esquecidas e passados dolorosos. Assim são as músicas de Down Colorful Hills, cheias de dor, de perda e de sofrimento. Cheias de uma alma que nos eleva a outras realidades e nos transforma.

Porque os Red House Painters precisam de ser relembrados, perpetuados e dados a conhecer, se for o caso, Down Coloful Hills é um álbum obrigatório. Apenas 6 músicas que podem mudar uma vida.




posted by not_alone @ 1:15 da manhã   0 comments
 

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