quinta-feira, agosto 17, 2006
Paredes de Coura | 3º Dia | 16-08-2006

Num dia em que os cabeças de cartaz do Festival Paredes de Coura eram dois dos mais célebres grupos da cena do rock alternativo actual, houve ainda tempo para reviver marcos do passado e testar a garra de projectos recentes.
Após o dia de recepção e o interessante primeiro dia de festival de facto (liderado por Broken Social Scene e Morrissey), ontem temia-se um dia cinzento e chuvoso. A chuva forte que se fez sentir ao início e a meio da tarde, agoirava um dia desconfortável e pouco convidativo a música ao vivo. Contudo, mal os Vicious Five entraram em palco, pouco depois das 18 horas, o tempo pareceu aguentar-se e não incomodar muito os vários espectadores que já se encontravam no recinto.

O quinteto, única presença portuguesa no palco principal de dia 16, mostrou o seu rock imparável, expirando a energia que lhes é reconhecida. Junto ao palco uma pequena multidão já saltava e batia palmas de forma considerável, até se metendo aqui e ali com o vocalista. Na relva, ainda com muito espaço vazio, a maioria preferia ainda estar sentada observando os Vicious Five com curiosidade e interesse mas demonstrando preferir esperar pelo que se seguia.

Depois, os Eagles of Death Metal, banda californiana liderada por Jesse Hughes e Josh Homme dos Queens of the Stone Age (que não esteve ontem em palco), trouxeram o seu rock mais típico e provocador, dando um bom concerto, capaz de chamar a atenção de uma plateia cada vez mais preenchida. As constantes menções às ladies da assistência, entre o engraçado e o irritante, demonstram bem a aura sexual que os Eagles of Death Metal se esforçam por cultivar. Contentes pela recepção calorosa dos portugueses, Jesse Hughes atribuiu ao amor do público pelo rock a causa do fim do mau tempo (o Sol despontou timidamente durante a sua actuação).

Já passavam das 20 horas e muita gente se dirigiu aos locais de restauração para jantar. Mas simultaneamente o número de espectadores ia crescendo à medida que se ia fazendo noite. Foi neste cenário que chegaram ao palco os Gang of Four. Os quatro britânicos tocam desde finais dos anos 70, tendo já uma vasta discografia que influenciou vários nomes posteriores. Os Gang of Four representaram ontem uma verdadeira escola de rock. Talvez aqueles que os acompanham desde o início da carreira estivessem em minoria em Paredes mas apesar de não terem conquistado os espectadores todos de início, conseguiram dar a volta ao concerto quando o vocalista partiu com um bastão um microondas em palco, fazendo de cada pancada um ritmo que os restantes membros da banda acompanharam com os seus instrumentos, numa surpreendente e fantástica actuação. A plateia mostrou-se bem mais entusiasta depois, ficando até a saber a pouco um concerto onde apesar de já se sentir o peso da idade, se evidenciou uma atenção admirável de não afastar os pioneiros do novo público.

Antes de subir ao palco a banda de Karen O já se faziam notar alguns problemas técnicos que causaram algum atraso no início do concerto. Mas mal os Yeah Yeah Yeahs subiram ao paço envoltos em plástico para “Cheated Hearts” – ao som do qual se começaram a desenvencilhar da cobertura – o público mostrou-se plenamente em sintonia com eles. É certo que havia claramente um público Yeah Yeah Yeahs, que sabia as músicas de cor e vibrava com a fabulosa presença em palco da imparável Karen O, mas o som não estava perfeito e talvez por isso esta segunda incursão dos nova-iorquinos em Coura não se tenha saldado numa satisfação plena. Houve momentos bons com “Date With a Night”, “Y Control” ou “Gold Lion”, entre outras, e um momento muito bom com a mais calma “Maps”, mas a comunicação com o público foi relativamente escassa e nem houve lugar para encore. Apesar da exuberância do guarda-roupa e da energia demonstrada, os Yeah Yeah Yeahs foram claramente suplantados pelos senhores que se seguiram, e que se dizia moverem talvez menos público ao festival que os YYY.

Pela primeira vez ao vivo em Portugal, os ingleses Bloc Party justificaram à primeira canção porque é que estão entre as melhores bandas de rock alternativo do mundo. Com apenas um álbum editado (o segundo vem a caminho tendo sido apresentadas algumas faixas em Coura), a banda de Kele Okereke iniciou o concerto com uma canção desconhecida mas conquistou o público aos primeiros acordes. Provavelmente o concerto com mais gente a assistir – falava-se em 20 000 pessoas – nem uma breve chuva durante o concerto fez desanimar o público, que saltava, dançava, batia palmas e cantava com o grupo. Competentes e empenhados, os Bloc Party deram, de longe, o melhor concerto do dia. As canções ‘clássicas’, como “Banquet”, “Helicopter”, “Like Eating Glass” ou “She’s Hearing Voices” foram apoteóticas, as canções inéditas foram bem recebidas e os momentos mais calmos comummente partilhados de forma tocante como “This Modern Love” ou “Two More Years”, já no encore. É elucidativo que os Bloc Party tenham sido a única banda do dia a voltar ao palco para mais e a única que o público pediu expressamente para regressar. Simpático e comunicativo, Kele Okereke disse mesmo várias vezes “see you next year”, impressionado com a recepção fabulosa que a banda teve neste primeiro concerto. Quanto a nós, cá os esperamos ansiosamente.

Suceder no palco aos Bloc Party era uma tarefa ingrata. Várias pessoas abandonaram o recinto após o concerto do nome forte do cartaz e os nova-iorquinos We Are Scientists, relativamente pouco conhecidos por cá, fizeram questão de suprir essa falha horária na sua actuação com tiradas nada simpáticas relativamente aos ingleses precedentes ou até aos Yeah Yeah Yeahs. Mas apesar do ‘feitiozinho’, o trio deu mostrar de uma garra notável em palco, dando um espectáculo francamente bom, parecendo agradar quer a quem os conhecia quer a quem não os conhecia. A segunda música que cantaram foi a sua mais célebre, “Noboby Move, Nobody Get Hurt”, cujo refrão foi entoado por várias vozes na plateia, mas sem perder o nível mostraram todos os temas do seu excelente álbum «With Love And Squalor» como “It’s a Hit”, “Can’t Loose”, “This Scene is Dead”, “The Great Escape” ou sua love song “Textbook” (com direito a piadinha para os YYY). Irreverentes mas suficientemente carismáticos e confiantes, os We Are Scientists provaram estar no bom caminho. O tempo dirá se se tornarão um fenómeno género Franz Ferdinand ou se se perderão entre a miríade de bandas medianas do dito indie rock.

Poucos minutos faltavam para as 2 da manhã quando terminou este último concerto no palco principal. A música prosseguiu no palco after hours com os Members of the Public, os Panico e o DJ Kitten (João Vieira, vocalista dos X-Wife – que haviam actuado na noite anterior), mas uma longa viagem de regresso até Lisboa fez-me sacrificar esses três concertos.
No geral, foi um bom dia de actuações, um pouco prejudicado pelo tempo encoberto e de chuviscos, em que os Bloc Party se destacaram do conjunto como os verdadeiros reis do dia.

Todas as fotos dos concertos que acompanham este post são da minha autoria. Fiz também alguns vídeos, que estarão disponíveis no YouTube nos próximos dias.

posted by H. @ 10:38 da tarde  
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