domingo, abril 22, 2007
Indie Lisboa | Day Night Day Night

Day Night Day Night”, a primeira longa de ficção da realizadora Julia Loktev, é uma co-produção americana e alemã centrada em alguns momentos da missão de uma bombista suicida nos Estados Unidos. A sua primeira apresentação no Indie, onde participa na competição internacional, ocorreu ontem com alguns problemas, já que a cópia de 35mm que deveria ter sido exibida se perdeu “algures na Macedónia”, tendo sido exibida uma cópia Betacam com muito pior qualidade. Os espectadores foram avisados do facto no início da sessão, e confortados com a frase “neste filme a parte visual não é assim tão importante” (ainda alguém me há-de explicar onde é que num filme a parte visual não é sempre importante...).

“Day Night Day Night” é um filme de gestos e de sensações, não de explicações ou mensagens. Da jovem que se voluntariza para se fazer explodir em Nova Iorque nada sabemos, nem sequer o nome. Acompanhamo-la desde a sua chegada a uma cidade que parece não ser a sua, onde se encontra com várias outras pessoas, a maioria das quais não vemos o rosto. Assistimos aos seus preparativos, a sua estada no hotel, o banho, as insónias, a refeição, a escolha da roupa, a colocação da mochila. Ouvimos as explicações, estamos com ela. Porque é que ela o faz? Não sabemos. Se serve uma causa ou um desespero adolescente. As possibilidades desenham-se enquanto o filme se desenrola mas nunca se fixam, permanecem sempre num total aberto. Quem a armou? Também não sabemos.
Da jovem, interpretada por Luisa Williams, pouco mais poderíamos dizer do que tem uma voz doce e educada, parecendo uma típica menina bem comportada. A normalidade de toda esta situação anormal é uma das impressões que ressaltam do filme. Guarde-se a imagem da jovem a escolher gomas numa loja de doces com uma bomba às costas. Na familiaridade dos seus gestos reside talvez a maior perturbação que sentimos (ou a perturbação de não sentirmos perturbação).
Ela fala de vez em quando, dirige-se a alguém que tanto pode ser Deus como um ex-namorado. Mais uma vez, tudo parece ser possível mas nunca nos é permitido saber o que é o real.

[de seguida mencionarei alguns momentos que convém não saber quando se for ver o filme por isso quem não viu passe ao parágrafo seguinte]

Quando o engenho não explode começa a estranheza e, depois, o desespero. Todo o plano tinha sido orquestrado de forma infalível, todas as excepções (ser detectada, ser presa) haviam sido previstas e dotadas de estratégias alternativas. Nunca por nunca se pensara que a bomba não iria explodir. Mas que bomba? Nunca vemos o conteúdo da mochila. E se tudo não passou de um engodo? De uma, digamos, brincadeira de alguém? Desprovida de dinheiro, de documentos, de telemóvel ou – em último caso – de identidade, à jovem nada parece restar. Para alguém tão determinado a morrer, há um confronto bem mais desconcertante com a obrigatoriedade de viver. De viver na indefinição, solidão e vazio.

Com uma predilecção pelos grandes planos, a câmara de Julia Loktev é intrusiva, trabalhando habilmente uma sensação de proximidade desconfortável no espectador.
Obra intrigante e muito bem conseguida, “Day Night Day Night” será certamente um candidato de peso a vencedor do festival. É preciso este arrojo mais vezes.


posted by H. @ 10:17 da manhã  
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