segunda-feira, fevereiro 04, 2008
Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street

Nenhum cinéfilo pode ficar indiferente a um regresso de Tim Burton às salas com um novo trabalho, especialmente se tal regresso é anunciado com a adaptação de uma sombria e sangrento musical teatral sobre um barbeiro vingativo na Londres industrial, e que tem Johnny Depp como cabeça de cartaz. À partida, todos esses elementos seriam suficientes para o tornar num dos grandes filmes do ano, mas a realidade acaba por se revelar bem diferente, e Sweeney Todd não passa da primeira grande desilusão entre as estreias portuguesas de 2008.

O enredo é simples, tal como se quer numa história clássica de vingança: Benjamin Barker (Johnny Depp) é um jovem injustamente preso durante 15 anos pelo juiz Turpin (Alan Rickman), vendo-se assim afastado da sua mulher e filha. Quando é solto, já auto-rebaptizado de Sweeney Todd, só tem na cabeça o desejo de vingança dos que o afastaram daqueles que mais amava, numa viagem sangrenta que começa e acaba na sua cadeira de barbeiro. Entretanto, descobre que a sua filha ainda vive, e fará tudo para a recuperar, com a ajuda da cozinheira das piores empadas de Londres, a sinistra Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter). É nesta “simplicidade” que se passam as duas horas de filme e são esses momentos banhados a sangue (em quantidades industriais, bem mais do que estaria à espera) e muito humor negro que nos prendem ao ecrã. Infelizmente, durante essas duas horas, outras coisas bem menos interessantes se passam...

Não conhecendo a peça que lhe deu origem, parece-me claro de qualquer das maneiras que Burton optou por se manter bastante fiel à mesma, e aí reside o primeiro grande problema de Sweeney Todd. Confinado a muito poucos espaços (nomeadamente a barbearia e a casa de empadas muito peculiar no andar de baixo), o filme parece nunca se desprender verdadeiramente das limitações teatrais, limitando o cinema habitualmente imaginativo de Tim Burton, ficando a sensação de que o filme nunca o chega a ser verdadeiramente, mas mais uma versão da peça registada em película. Como se isso não bastasse, os números musicais são longos e maioritariamente redundantes, nem sempre ajudando ao avanço narrativo, nem regalando particularmente o nosso olhar. Finalmente, o argumento adaptado por John Logan é quase nulo na criação de qualquer emoção verdadeira, nomeadamente na história que envolve Johanna (a filha de Sweeney entretanto criada pelo juíz Turpin pela qual mantém uma atracção doentia) e o marinheiro Anthony, despida de intensidade ou complexidade suficientes para nos fazer interessar por eles, o que não deixa de ser irónico, uma vez que se tratam das personagens mais inocentes num filme todo ele habitado por monstros (porque, sem dúvida, é de um filme sobre monstros – e da corrupção que os forma – que se trata).

O que sobra, então, em Sweeney Todd que valha realmente a pena? Muito pouco, infelizmente, mas ainda assim o suficiente para o resgatar de nulidade completa. Primeiro, porque podemos reconhecer algumas das principais características do cinema de Tim Burton que aprendemos a adorar ao longo dos tempos, nomeadamente a nível visual (espantosa fotografia e cenários) e temático, debruçando-se sobre os marginais de sempre. Depois, temos em Johnny Depp a intensidade de sempre, fazendo-nos sentir algo pelo seu demónio cortador de pescoços, mesmo lutando contra um argumento anémico que desaproveita e de que maneira as qualidades potenciais da sua personagem. Ah, e convém não esquecer Sasha Baron Cohen, hilariante como um barbeiro “italiano” capaz de provocar gargalhadas só com a sua presença em campo. Mas isso é muito pouco, e no final sobra apenas a desilusão quase total, e as revelações mais do que previsíveis que vão sendo feitas até chegarmos ao último plano que, infelizmente, na sangrenta beleza poética que o constitui, nos fazem pensar mais no que o filme poderia ter sido do que naquilo que acabou por ser...

posted by Juom @ 5:19 da tarde  
8 Comments:
  • At 6:18 da tarde, Blogger P.R said…

    Pois olha... o insólito acontece! Concordo contigo ;) lol

    O filme é mesmo fraquinho...

     
  • At 7:48 da tarde, Blogger Sara said…

    opiniões...

    Não devemos mesmo ter visto o mesmo filme porque quando dizes "Confinado a muito poucos espaços (nomeadamente a barbearia e a casa de empadas muito peculiar no andar de baixo), o filme parece nunca se desprender verdadeiramente das limitações teatrais, limitando o cinema habitualmente imaginativo de Tim Burton" não deves ter tomado atenção à sequência "By the Sea" que transpira Burton por todos os poros e se passa nas mais diversas localidades...

    Quando se é do contra...

     
  • At 8:07 da tarde, Blogger Paulo said…

    Epah, isso é coisa rara, Pedro. Mais estranho é acontecer em relação a um filme de um realizador de que ambos gostamos imenso, lol. Mas sim, este é fraquinho... ;-)

    Sara, ser do contra não tem absolutamente nada a ver com o que quer que seja aqui. Talvez tu não tenhas tomado atenção ao que eu escrevi e ao que tu citaste, porque quando digo "muito poucos espaços", obviamente que não me estou a referir apenas a dois, senão estava a esquecer-me do manicómio, da casa do juíz, do tribunal, etc... Mas há duas coisas:

    - em primeiro lugar, o espaço limitado não é forçosamente uma... limitação. Basta ver, por exemplo "Death and the Maiden", de Polanski, para se ver um bom filme, quase todo ele também confinado a um lugar, e do qual eu gosto bem mais do que Sweeney Todd. Há muitos mais exemplos disso mesmo...

    - assim, não é por existirem outros espaços durante alguns dos inúmeros minutos de duração que o filme passa a ser melhor ou pior. Nem nunca disse que o filme não respira Tim Burton, aliás, incluo isso entre as coisas boas de Sweeney Todd. Se gostas do filme, ainda bem, quem me dera ter gostado deste novo filme de um dos meus realizadores favoritos. Não venhas, por favor, é com comentários de que não tomei atenção só porque tenho uma opinião diferente da tua. Obrigado por leres.

     
  • At 12:35 da manhã, Blogger O Homem que Sabia Demasiado said…

    Ainda bem que há opiniões diferentes. Eu gostei e muito. Explico no meu blogue.
    Saudações cinéfilas,
    VA

     
  • At 3:23 da tarde, Blogger aquelabruxa said…

    é impressão minha ou o johnny depp e a bonham carter até já começam a parecer-se fisicamente, à custa de tanto filme to tim burton?lol
    ainda não vi, mas vou ver brevemente com amigos.

     
  • At 5:27 da tarde, Blogger Cataclismo Cerebral said…

    Conheço muita gente que tem saído desiludida do filme; no entanto, a crítica tem-lhe rendido elogios. Será esta uma daquelas polémicas cinematográficas? Ainda assim quero pôr-lhe a vista em cima...

    Abraços

     
  • At 7:17 da tarde, Blogger Miguel Costa said…

    Permitam-me discordar IMENSO desta crítica.
    Gostos não se discutem, mas....

    Conhecendo eu a história que lhe deu origem, posso afirmar uma grande fidelidade do filme face á peça.
    Acho uma votação de 2 estrelas mesmo inaceitável.
    A interpretação de Jognny Depp é excelente, sim, mas também a de Hellen Carter, de Allan Rickman e do rapaz que interpreta o Toby foram bastante boas. O lip-singing esteve perfeito. Tal como referiu, cenários excelentes, espantosa fotografia, ...
    E não acho que o filme seja limitado em qualquer aspecto. Acho simplesmente que o Tim Burton (também um dos meus realizadores preferidos) teve maneiras pouco convencionais de demonstrar certas emoções (e sim, é um filme cheio de emoções, mesmo que negativas). E foi objectivo do próprio criar um filme teatral, no sentido de registo da peça em filme, pois ele é um grande fã da peça.

    Acho que, de todo, não é um filme fraco. Tem uma visão talvez demasiado particular. Sim, porque o Tim Burton é um dos poucos realizadores que se pode gabar de fazer filmes exactamente como vão na sua mente.
    E por isso, dou-lhe eu 4 estrelas.

     
  • At 7:58 da tarde, Blogger sofia martínez said…

    Eu gostei de tudo e música excessiva, gostei principalmente por Jonny Deep bem devo admitir que apesar de ser um musical o roteiro era bastante atraente, cujo mérito deve entregá-lo a J. Logan. Altamente recomendado.

     
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