
Mais uma vez enfatizo aqui a riqueza de uma ida ao teatro. Não percam a oportunidade de passar uma noite espectacular e de viver experiências diferentes, sempre ao vivo.
Desta vez foi Avalanche. A peça de autoria de Ana Bola tem enchido as salas do Teatro Villaret noites seguidas. Avalanche é uma história que consegue envolver e simultaneamente divertir o espectador, fazendo rir não só pelo conteúdo mas também pela representação excelente do elenco. A história tem lugar num hotel nos Alpes Suíços, onde um grupo de gente excêntrica (cada um à sua maneira) e desconhecida, se junta com o propósito de praticar ski. Obra do destino, ficam isolados devido a uma avalanche. Ana Bola e Maria Rueff constituem uma das duplas, uma produtora de moda e a proprietária do negócio viciada em cocaína, respectivamente. Sem dúvida, Maria Rueff é um dos grandes talentos da actualidade, com uma capacidade de construção de personagem fantástica. A forma de falar, os tiques irritantes e a arrogância com que se coloca num nível superior são lindamente integradas na pele de Branca, a personagem mais snob e desequilibrada da peça.
Seguem-se Miguel Guilherme e Bruno Nogueira, Comandante e co-Piloto. Foi a primeira vez que pude apreciar Bruno Nogueira ao vivo, e não minto ao dizer que só a sua presença é terrivelmente emotiva, em todos os sentidos. Não no sentido estritamente dramático, mas sim pelo facto de existir qualquer coisa dentro de nós que é ‘activada’, seja pela sua magreza acentuada, pelo rosto expressivo e ingénuo da personagem, ou tão somente pelos dois metros de altura que tornam perfeito o tosco Pepe Andrade. Por sua vez, Miguel Guilherme é o comandante que tem sempre histórias para contar. Sempre com o esforço de se mostrar controlado, muito vivido, maduro,.. enfim, típico amedrontado que faz tudo para valer a sua reputação e um estatuto profissional. No entanto, fá-lo de forma humilde e sem pretensões, quer convencer-se mais a si do que aos outros.
Finalmente, Gina Maria, a recepcionista do hotel. Maria Vieira protagoniza um dos melhores momentos em palco na sua comparação paradoxal com a personagem de Bruno Nogueira: as suas fisionomias juntas são brutais! Lindo!
Em suma, com um elenco desta qualidade não restam dúvidas do que há de muito bom no teatro em Portugal e sobre a razão porque ainda temos êxitos de bilheteira. Não restam dúvidas de que é uma peça a não perder. Classificação:     |