quinta-feira, dezembro 21, 2006
Infernal Affairs Vs The Departed


Infernal Affairs, por not_alone

Infernal Affairs é, quanto a mim, o melhor policial alguma vez vez feito. Toda a trama de mistério e suspense até ao final do filme deixa-nos com o coração nas mãos. Mais do que isso, é um grande filme de acção que tem como base um brilhante argumento. Ora, todos sabemos que vindo de Hollywood são poucos os filmes que conseguem juntar eficazmente as duas coisas. Michael Mann é uma das excepções que confirma a regra.

Bem como grande parte dos filmes asiáticos, há uma preocupação extra com o visual e com os cenários. O topo do edifício aonde os heróis de The Departed se confrontam, é uma pálida cópia da imponência do arranha-céus em Infernal Affairs. Neste campo podemos dizer que Wai Keung Lau e Siu Fai Mak, apostaram num visual mais estilizado (que me agrada mais) do que o visual árido e seco de The Departed.

As personagens, normalmente tipificadas em filmes deste género, são obscuras e complexas em Infernal Affairs. Há todo um percurso de vida, que assistimos passo-a-passo, presenciando a evolução dramática que, inevitavelmente, vai condicionar as acções e atitudes das personagens.

Martin Scorcese pouco mais fez do que traduzir o texto e escolher novos actores no seu remake. Façamos um exercício de suposição. Alguém decidia fazer da Mona Lisa uma mulher asiática. O desenho saía lindíssimo porque o pintor era extremamente talentoso, mas, será isso razão suficiente para afirmar que esta nova pintura é melhor do que a original giocconda? Claramente, não. Há todo um mistério por trás daquele quadro que o torna especial, que o eleva acima dos outros. Mesmo que seja copiado e melhorado será sempre genial.

Infernal Affairs mostrou, mais uma vez, aos americanos que se pode inovar, que se pode fazer um bom filme de acção com um argumento genial. Scorcese quis mostrar que o homem que realizou Goodfellas ainda surpreende. Pois a mim surpreendeu pouco. Sem menosprezar o trabalho do realizador, o trabalho árduo estava feito. A transição para a realidade americana foi muito bem conseguida e, não me interpretem mal, The Departed é um bom filme. Mas só o é porque Infernal Affairs já existia.

:::::::::::::::::::::::::SPOILERS::::::::::::::::::

O final de The Departed foi o que mais me indignou. Um capricho de Martin Scorcese, para mudar algo na história do original. Acabou por mudar o que dava a Infernal Affairs o seu toque de génio. A personagem de Matt Damon morre, enquanto em Infernal Affairs sobrevive (e sobrevive é o termo correcto), com os remorsos e a culpa. Viverá uma vida negra e atormentada. Em The Departed passamos demasiado tempo a olhar para um elenco que vai ser todo chacinado às 3 pancadas no final.



The Departed, por Paulo Costa

Antes de mais, convém esclarecer a minha posição em relação a Infernal Affairs: trata-se de um bom filme, com uma premissa interessante, dois actores que muito admiro, uma realização com estilo, e não me provoca qualquer tipo de confusão o culto que se instalou à sua volta. Dito isto, convém esclarecer a minha posição em relação a The Departed: é realizado por um dos meus maiores ídolos cinematográficos, tem um elenco verdadeiramente fenomenal, uma realização que alia o estilo e a visceralidade habituais no cinema de Scorsese e é, em minha opinião, o remake perfeito – parte de uma mesma premissa, mas aborda-a de forma diferente e, digo eu, torna-a bastante melhor.

Enquanto Infernal Affairs me parece apenas uma obra interessante, The Departed é absolutamente fantástico, ao nível dos melhores trabalhos do realizador. A ideia com que fiquei depois de ver o filme, foi que William Monahan pegou na história pelos colarinhos, endureceu-a com umas valentes bofetadas e aprofundou-a da melhor maneira, dando-lhe uns toques pessoais, e transpondo a acção para Boston, não meramente através de uma simples mudança de cenário como também do próprio registo, tornando-a profundamente americana, quando o filme original era profundamente oriental. Temos aqui um filme que, ao mesmo tempo, é capaz de nos entreter como nenhum outro este ano, enquanto leva ao limite o tema da identidade – espelhado também nas figuras paternais das personagens. Como não podia deixar de ser, Marty adapta a força da história e das personagens ao seu inconfundível estilo, e oferece-nos o elenco perfeito, capaz de entrar a fundo na alma das personagens e de lá tirar composições magníficas: DiCaprio, Damon, Wahlberg, Nicholson, Sheen, Baldwin, Winstone... todos são perfeitos à sua maneira, e Vera Farmiga, como o único elemento feminino de peso nesta história de homens, oferece o equilíbrio essencial ao filme e, fundamentalmente, ao confronto entre os dois protagonistas principais: DiCaprio e Damon.

Quando temos um argumento, uma realização, um elenco e uma equipa técnica assim (de Thelma Schoonmaker a Michael Ballhaus), não temos sequer o direito de esperar melhor que isto.
posted by Juom @ 11:49 da tarde  
7 Comments:
  • At 12:10 da manhã, Blogger P.R said…

    Eu também vi os dois filmes, mas no meu parecer the departed é sem dúvida melhor filme que infernal affairs. E digo mais, o filme original tem a virtude de ser, lá está, original, mas o próprio argumento de The departed é bastante mais coeso, interessante e profundo que o primeiro. Temos um elenco bastante melhor, personagens muito mais desenvolvidas, uma realização perfeita e um trabalho técnico a anos-luz do antecessor.

    E lanço uma questão, ou melhor, duas: Será assim tão mau pegar num filme e tentar melhorá-lo? Se este remake fosse daqui a 50 anos haveria tanta discórdia? Deixo para vossas as resposta, porque a minha parece-me que está bastante patente ;)

     
  • At 12:26 da manhã, Blogger Miguel Galrinho said…

    O argumento de thriller de Infernal Affairs é realmente fantástico. Pena que não passe disso, por várias razões: em primeiro lugar, porque é, realmente um bom filme de ACÇÃO, sem passar disso e tentar ir mais além; em segundo lugar (e, de certa forma, em consequência), porque a sua realização prefere um excesso de estilização demasiado over the top em vez de se interessar em desenvolver e aprofundar personagens e relações. E foi isso que Martin Scorsese soube fazer tão bem: aproveitar um argumento de thriller genial, e dar-lhe uma nova densidade, acrescentando-lhe mais e mais camadas. Ou: como se transforma um filme de acção num drama que tem tanto de grandioso e de épico , como de pessoal e profundamente humano, não estivesse a personagem de DiCaprio em constante busca por uma identidade. É o trabalho de realização e a subtileza dramática que, enfim, só é possível por parte dos grandes mestres. E Martin Scorsese é um deles.

     
  • At 1:46 da manhã, Blogger Paulo said…

    Pois, mais ainda do que a questão que o Pedro levanta, eu acrescentaria: porque é que quando alguém adapta um livro ao cinema, estas questões todas não se levantam? Estamos a falar de uma reinterpretação de uma história já existente anteriormente, tal qual acontece com um remake, e no entanto ninguém anda aí a desesperar pela quantidade de filmes que se adaptam de livros. Como fiz questão de referir no meu comentário ao filme, há é filmes bons e maus - e penso que o problema de muita gente com os remakes é que muitos são feitos simplesmente com o objectivo de fazer dinheiro, devido à popularidade do original, deixando-se de parte qualquer vontade de recontar a história, ficando-se pela cópia. Ora, Scorsese é o maior, e não só fez um bom filme como fez um filme genial.

     
  • At 1:13 da manhã, Blogger wasted blues said…

    Por ser Scorsese nem hesitei em ver 'The Departed', admito. Fosse outro o caso e estaria, talvez, indignada com um remake de uma obra-prima. Neste caso, e em poucas palavras, adoro os dois filmes, com as suas semelhanças e diferenças, com as suas realidades, mundos e culturas diferentes, mas com o factor humano em comum.

     
  • At 5:20 da tarde, Blogger _Loot_ said…

    Adorei os dois, acho que Martin Scorsece pega neste filme de uma forma sublime, transpondo a estória para boston, dando mais espaço e background às personagens. The Departed é um magnífico remake.
    Melhor do que infernal affairs? Eu não acho, tudo bem que tem pormenores de realização fantásticos e tem sem dúvidas momentos melhores, mas infernal cumpre e tem momentos que também faltaram em departed. Gosto particularmente das diferentes atmosferas entre eles, em infernal um azul frio, no outro um vermelho quente.
    Mas o que mais distingue os filmes para mim, e por isso me inclino mais para o infernal affairs é a personagem do matt damon, que é muito mas muito melhor e mais profundo na versão de Hong Kong, e talvez por isso not_alone o final de the departed seja diferente, eu gostei mais do fim do infernal mas fazia sentido aquela personagem ter aquele final, no departed matt damon demonstra apenas uma grande preocupação em safar-se da situação sendo mais egoísta e centrado em si.

     
  • At 4:55 da tarde, Blogger Izzi said…

    Acabei de ver o Infernal Affairs e gostei bastante do filme. No entanto acho que faltava um pouco mais nas personagens. Parece que tudo passa muito depressa e não consigo ver realmente as ligações existentes entre as várias personagens. O argumento está, claro, muito bom. Aguardo agora oportunidade de ir ver o Departed, do qual espero algo melhor.

     
  • At 12:08 da manhã, Blogger João said…

    Vi os dois filmes e prefiro o The Departed, porque as personagens estão mais bem conseguidas, percebe-se melhor quais as suas motivações e, assim, a história prende mais. Infernal Affairs é um bom filme mas com pouca intensidade. Concordo, contudo, que o final de Infernal Affairs é melhor do que o de The Departed.

     
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