sábado, abril 22, 2006
Indie Lisboa | Mary


Até que ponto existe um Deus dentro de nós? Até que ponto ele é dono de uma verdade absoluta? Há quem diga que todos nós temos uma verdade, a nossa, aquela que para nós faz sentido e dá sentido às coisas e ao mundo… De qualquer forma, é sempre interessante quando um filme nos faz pensar nas necessidades humanas, conscientes ou não, de seguir um Deus e de ser encaminhado pelo mesmo.

Mary não era, desde logo, um filme que me cativasse muito. No entanto, conseguiu extrair um misto de ideologias e de opiniões que convergem para um só elemento, o amor, tornando algo apetecível beber um pouco daquele cálice, se assim poderei dizer. De facto, este filme agradou-me especialmente por mostrar um pouco de todas as posições que qualquer pessoa pode tomar quando toca à religião. Se ao mesmo tempo os teólogos e especialistas religiosos acentuavam a importância do Senhor e da sua simbologia, os actores do filme, nas suas diferentes personagens, deixavam passar uma mensagem distinta.

O elo de ligação do filme passa pela conquista da fé, daquilo que preenche o ser humano, que é simultaneamente o seu refúgio e a sua força. Com efeito, se nos sentimos independentes e vencedores por atribuirmos a nós próprios o nosso caminho, por vezes a consciência é capaz de nos trair, de nos fazer medir o bem e o mal, pesando-os rigorosamente na balança.

Além deste pensamento, Juliette Binoche é também uma das personagens mais simbólicas deste filme. Vestindo a pele de Marie, uma actriz famosa que acaba por se afundar nos escritos religiosos de Maria Madalena (dando assim título ao filme), representa a importância de encontrarmos dentro de nós a felicidade e que nos dá paz interior. Marie alerta-nos para a altura da vida em que o que temos deixa de estar ‘no nosso coração’, para dar espaço a um outro mundo, a uma paz. No fundo, a uma verdade.

Em suma, acreditando ou não nos ensinamentos religiosos que nos perseguem diariamente (quer queiramos quer não) este filme diz-nos para buscarmos a nossa verdade, absoluta ou não. Cada vez parece ser mais difícil, mas o que acontece é que cada vez mais queremos dar um sentido ao que está à nossa volta, “não àquilo que vemos com os olhos, mas ao que vemos com o coração”.


Classificação:
posted by Ana Silva @ 4:34 da tarde  
5 Comments:
  • At 4:52 da tarde, Blogger P.R said…

    "...tornando algo apetecível beber um pouco daquele cálice, se assim poderei dizer". Penso que poderei usar esta frase tua para justificar o quão manipulador e ideologicamente arrogante o filme é ;)

     
  • At 5:02 da tarde, Blogger Ana Silva said…

    Julgo que cada um de nós deve procurar discernir aquilo que nos dão daquilo que realmente queremos. No entanto, e apesar de esse ser cada vez mais um mal social, penso que o facto de alguém se deixar envolver pela abordagem que o filme tem ao tema não implica a sua arrogância, como dizes. Muitas vezes a imparcialidade de um filme não garante nem justifica a sua qualidade, mas deve sim remeter para a 'verdade' de quem o faz, neste caso, o realizador Abel Ferrara ;)

     
  • At 5:12 da tarde, Blogger P.R said…

    Sim, mas um filme que tem como temática um assunto tão "delicado" era de esperar um olhar mais imparcial no sentido de deixar o telespectador perceber qual a sua "verdade". Eu acredito que aquilo que Ferrara nos transmite seja a sua verdade, agora não deve nem pode querer impingi-la a quem a vê. No entanto não me parece que a questão de fundo se centre na capacidade de discernir aquilo que queremos daquilo que nos dão, como dizes no teu comentário acima. Abel Ferrara tem o seu ponto de vista mas não tem, contudo, o direito moral de tornar isso absoluto para todos. E o facto de ter uma opinião contrária às intenções do realizador parece-me ser revelador da minha capacidade de discernir, e neste caso de discordar, daquilo que Ferrara nos demonstra no seu novo filme. ;)

     
  • At 11:08 da tarde, Anonymous Hugo Gomes said…

    Concordo com PR, também acho o filme manipulador até de mais! Ferrara quer a todo o custo depositar as suas crenças no especatdor e isso vêm-se no tratamento do realizador do filem representado no mesmo, quando quer lançar um filme com uma alternativa na vida de cristo, nesse afcto dar o feminismo que a historia pretendia e não tem. Forest Whitaker cita no filme algo como isto "a mãe diz sempre, conforme as versões que há, é um histroia sobre amor", pensoq ue esta moralidade só está lá para balançar a consciencia do mesmo, porque tal n se aplica, o realizador "infiel" é "apedreado" em preça publica enquanto que o seguidor das leis (Biblia) ganha pela mão do realizador, a verdadeira palavra. Se isto não é manipulação, não sei o que é.

     
  • At 11:47 da manhã, Blogger MonsterMars said…

    porra... ainda bem que ferrara fez um filme expressando a sua opinião, a sua visão... tomara todos os realizadores e artistas tivessem essa coragem. todos os grandes filmes são isso: a visão do realizador partilhada com o mundo. só por não concordarem com as concepçoes dele n quer dizer que o filme seja mau... ainda bem que o filme irritou gente e fez pessoas pensarem... é por isso que vou ao cinema... o apocalyspe now é o quê? além de uma obra prima e um filme sobre a condiçao humana, em ultimo caso, tambem e um manifesto anti guerra... aqui já é válido "manipular" as consciências? eu tb n sou religioso, mas o ferrara tem tanto direito de mostrar as suas concepçoes e crenças como qualquer outro...

     
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