sábado, abril 29, 2006
IndieLisboa | The Proposition


Até ontem, as minhas escolhas no festival lisboeta tinham tido um sabor a desilusão. Passando por obras menores como Mary e filmes medianos sem serem excepcionais como Mutual Appreciation, All the Invisible Children e M/other, a verdade é que faltava um filme que me arrebatasse verdadeiramente. E eis que chega The Proposition.

Escrito pelo famoso Nick Cave, The Proposition é um western que conta a história dos irmãos Burns. Sendo procurados por toda a Austrália devido aos actos bárbaros por si cometidos, dois dos três irmãos acabam por ser capturados pelo Capitão Stanley. E é aí que a proposta é feita. Charlie Burns tem nove dias para capturar e matar o seu irmão mais velho e líder do bando, Arthur Burns. Caso não cumpra o acordo, o seu irmão mais novo (Mike Burns) é enforcado no dia de Natal.

Este é o ponto de partida para um filme fantástico que tem a morte e a violência como ponto central. Nick Cave tem aqui um ensaio fascinante sobre a influência da violência e da brutalidade na vida das pessoas. Aqui não só é retratada a violência dos criminosos como também aquela que é praticada em nome da justiça. Na verdade, o filme não entra na espiral que seria mais previsível de que "o crime não compensa". Não. O desenrolar da história mostra-nos que até os mais pacíficos, em nome da justiça e da vingança, são capazes de actos igualmente hediondos como aqueles que condenaram. Exemplo perfeito disto mesmo é a cena em que uma das personagens é impiedosamente chicoteada, onde a carga emocional é deveras impressionante. Porém, nem só da brutalidade vive o argumento deste filme, muito devido à tridimensionalidade das personagens. De facto, tanto a personagem de Guy Pearce, Charlie Burns, como, principalmente, a personagem de Ray Winston (Capitão Stanley), são assaltados por dúvidas existenciais que marcam o percurso de ambos.

No entanto, se o argumento é muito bom, todos os outros aspectos são de simultânea qualidade. Começando pela realização de John Hillcoat, este fez um trabalho incrível, não só pela aproximação que permite aos telespectadores, como pelos planos imbuídos de um lirismo forte e de incontestável presença. Com lirismo do filme está igualmente relacionada a sua fotografia, que ameaça ser um dos melhores trabalhos deste ano, juntamente com a banda-sonora que se funde com os planos e com a acção do filme.

Um último apontamento em relação aos actores. Todos, sem excepção, têm aqui um trabalho admirável. Sobressai naturalmente Guy Pearce pelo seu olhar perdido e de redenção, Emily Watson pela sua entrega e expressividade, Danny Huston pela composição fascinante do perigoso irmão Arthur, Ray Winstone pelo olhar perdido e receoso e, finalmente, John Hurt que, independentemente do pouco tempo em cena, tem uma performance arrasadora.

The Proposition é assim um filme fascinante. Claramente um dos melhores do Indie e seguramente um dos melhores de 2006, é um excelente motivo para ir ao cinema. Estando previsto estrear em Portugal, este filme torna-se desde já obrigatório uma vez que independentemente da atmosfera cruel e violenta, consegue ser um retrato brilhante do homem, tanto da sua racionalidade como do seu lado mais animalesco.

Classificação:
posted by P.R @ 3:40 da tarde  
2 Comments:
  • At 7:24 da tarde, Blogger H. said…

    era um dos que mais queria ver no Indie mas resolvi ser responsável e abdicar em prol do estudo p/ uma frequencia na manha seguinte...
    felizmente terá estreia nacional! agora qdo... :x

     
  • At 8:00 da tarde, Anonymous Mário Lopes said…

    Estreia a nível nacional dia 1 de Junho.
    Também já vi. É 1 excelente filme, dos melhores do ano!

    Cumprimentos

     
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