Ainda que não sendo um grande documentário,
Comedian acaba por funcionar como um interessantíssimo olhar sobre uma das mais ingratas e complicadas tarefas que o homem tem de enfrentar: a de fazer rir. Como diz a certa altura um dos intervenientes: “mesmo que estivéssemos diante de Jack Nicholson, que toda a gente no mundo adora, e ele estivesse lá para nos fazer rir, apenas tinha uma margem de erro de 5 minutos, após a qual, se não estivesse a ser bem sucedido, começaria a perder o seu público”.
Comedian não tem Jack Nicholson, mas tem uma outra personalidade do mundo do espectáculo que toda a gente adora: Jerry Seinfeld, que dispensa logo à partida qualquer tipo de apresentação. E a proposta do filme de Christian Charles é a de acompanhar de perto o regresso do comediante mais bem sucedido dos últimos anos no regresso aos espectáculos em palco, percorrendo os mais variados clubes de comédia dos Estados Unidos. Ao longo dessa viagem, é possível notar uma evolução que, mesmo em alguém com a experiência de Seinfeld, é necessária na formação de todo o processo criativo. Assim, vemos a sua confiança no seu próprio material e nas suas capacidades a regressarem aos poucos, vemos o seu à vontade em palco a crescer e, com ele, o tempo de cada espectáculo e a coragem em enfrentar o público. No final, o comediante surge como essa figura carregada de dúvidas, como sendo o seu principal crítico e, finalmente, como alguém que procura a aceitação através do riso dos outros.
E numa jogada inteligente, Charles optou por construir o seu filme através de um paralelismo bastante interessante: assim, como contraponto à serenidade e à experiência de Jerry Seinfeld, temos Orny Adams, um comediante em início de carreira que tem tanto de genialmente cómico em palco como de absolutamente insuportável e egocêntrico fora dele. É difícil de saber até que ponto é que Orny representa diante das câmaras uma imagem que pretende passar, ou se tudo aquilo que ele faz e diz é verdadeiramente genuíno. Seja como for, aquilo que acaba por sobressair é a clássica ideia de que por detrás de cada
funny man está um ser humano... tão humano como qualquer outro e, neste caso, o seu percurso chega mesmo a incomodar, porque a sensação que temos constantemente é a de estar diante de um homem que, por muita alegria que ofereça a desconhecidos nos seus espectáculos, nunca virá a realizar-se ele próprio.
Na sua curta duração (cerca de 80 minutos),
Comedian consegue entreter o espectador devido, em grande parte, à qualidade dos seus intervenientes – os números escolhidos são divertidíssimos, e os
cameos de outros comediantes famosos são mais do que muitos. Não optando por uma abordagem tão pungente e crua como se calhar poderia e deveria ter acontecido acaba por, ainda assim, ser um olhar ao mesmo tempo doce e amargo sobre a vida destas pessoas para quem ter piada é como ter oxigénio para respirar. O problema é que, enquanto a piada não surge, o caminho a percorrer até a encontrar pode ser particularmente ingrato.



