sábado, janeiro 31, 2009
Jeff Buckley | Grace


Nunca pensei atrever-me a escrever sobre este álbum em específico. Esta pequena peça redonda capaz de mover, não montanhas, mas as mais sinceras e profundas partes de um ser humano. Não quero estar à altura da sua dimensão com as minhas palavras, mas quero, isso certamente, prestar-lhe a minha humilde homenagem. E perder os medos que vêm com a certeza de saber que tudo o que possa dizer nunca vai ser suficiente.

Jeff Buckley morreu com 31 anos, afogado no Rio Wolf. Como que a prever a sua morte, deixou uma série de legados musicais que nunca cessam de me espantar. De todos eles, Grace surge de forma ímpar. Foi um disco difícil de descobrir, não se faz só com uma audição de fugida. Mas, à medida que vamos descortinando as suas camadas, algo em nós faz mais sentido. Se ganhei alguma coisa, nunca pode ser resumida. Porque tudo o que aprendi da sua música torna-se real nas lições. As que aprendi e as que ainda estou por descobrir. Na minha perspectiva, é um registo sobre a perda. Do amor, da condição humana, dos medos. Aqui, tudo se perde à medida que tudo se transforma. A sua voz, talvez o maior dos muitos trunfos de Buckley, avassaladoramente vivida - e sofrida - guia-nos por uma viagem em que, utilizando uma metáfora para melhor retratar a minha ideia, tudo vai sendo lançado de um carro em andamento. Ora mais melódico, ora mais doce, com rasgos de raiva que nunca nos deixam esquecer para onde estamos a ir. E de que havemos de lá chegar.

O primeiro pico, chega em Last Goodbye. Um testemunho devastador sobre o fim de uma relação. À terceira música estamos rendidos, cansados e derrotados. Mas tudo vale a pena quando acendemos um cigarro e no mistério do seu fumo damos um trago em Lilac Wine. Uma das várias covers que Jeff Buckley rouba e torna suas. Pessoalmente, esta é provavelmente a melhor reconstrução de uma canção por um artista. O ambiente jazz, calmo e sedutor da canção embala-nos, para relembrar que tudo está bem cá no fundo da nossa dor. 

Enquanto a viagem continua, So Real dá-nos a nossa natureza de volta, o instinto animal e a ira. O pecado. E logo de seguida a absolvição, em Halellujah. Uma das faixas mais conhecidas da maior parte do público, seja pela voz de Buckley, Rufus Wainwright ou o original, de Leonar Cohen. Não afirmo que esta seja melhor do que aquela porque aqui, como em mais nenhuma outra, a canção toma o palco principal e quem a canta é um mero espectador do seu poder. Quase divino. 

E no sortudo número 7, somos desarmados. É certo que o amor é o sentimento por excelência, mas nada me podia preparar para que alguém o pudesse pôr por palavras desta forma. "It's never over, my kingdom for a kiss upon her shoulder", assim canta um coração despedaçado. É o clímax em jeito gospel, mesmo que o fim ainda não tenha chegado. Arrisco-me a dizer que Lover, You Should've Come Over é a melhor canção alguma vez criada. Por todo o seu peso, pela construção soul (e alma é a palavra certa), é um portento que nos arranca pedaços a cada vez que toca. E quem canta assim, merece uma estátua. 

A estrada acalma debaixo dos nossos pés, por breves instantes, até nos apercebermos de que podemos não chegar ao fim que tinhamos planeado. A dúvida não é se podemos continuar mas se ainda o queremos, depois de tanta coisa perdida. "What is love? Where is happiness? What is life? Where is peace? When will I find the strenght to bring me release?"

E no final, não há nada mais a perder. E estamos livres. Porque - citando Chuck Palahniuk - It's only after we've lost everything that we're free to do anything.


Perdoem-me as metáforas, os lugares comuns, a lamechice pegada que se torna este texto à primeira vista. Mas os sentimentos são mesmo isso, aquilo pelo qual todos passamos, da mesma forma, com maior ou menor intensidade. A vida, no fundo, é um cliché. 
posted by not_alone @ 9:35 da tarde  
1 Comments:
  • At 12:39 da manhã, Blogger Chá Verde said…

    ..E nunca li tão rigoroso retrato de um único cd :)
    Este conta histórias, e mais do que isso cria em nós diversas emoções de cada vez que o ouvimos, contraditórias até. Desperta todos os nossos sentidos...
    Àparte as metáforas, lugares comuns, lamechice pegada, Grace é talvez o álbum que mais vezes ouvi, e ao primeiro som, acorde que seja, vislumbro logo o que vem a seguir..
    De facto quem canta assim merece uma estátua. A de Jeff Buckley estará sempre algures dentro de mim :)

     
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