segunda-feira, janeiro 19, 2009
"A fuga dos cinemas"

Recentemente, tenho constatado, através das críticas que vão aparecendo na net e em conversas com amigos, que a sala de cinema está a deixar de ser o local privilegiado de visionamento de filmes, para dar lugar aos divx descarregados da net.

Do que me é dado a entender existem 3 razões para tal:
1 – Pouco dinheiro para o elevado preço dos bilhetes
2 – Ansiedade em ver os filmes antes da estreia
3 – Os Filmes não estreiam perto da zona de residência

Se o 3 argumento me parece válido muito por culpa das distribuidoras (não é razoável pedir as pessoas que andem 100 kms para irem ao cinema todos as semanas/meses) os 2 outros pontos parecem-me falsas questões.

Relativamente à componente financeira, é um facto que os bilhetes de cinema estão cada vez mais caros, tal como tudo. Mas também é igualmente verdade que existem serviços, como o Medeia Card que, por 15 euros por mês, permitem que se vá ver até 2 filmes por dia aos cinemas. Ou seja, quem é cinéfilo e gosta de ver vários filmes tem aqui um excelente produto substituto dos downloads. Obviamente que estes serviços privilegiam Lisboa e Porto. É exactamente por isso que considero o 3 argumento pertinente.

Quanto ao 2 ponto percebo a motivação mas questiono: não perderá, determinado filme, impacto ao ser visto no computador quando poderia ser visto na grande tela? Acho que este é a questão central. A qualidade do filme e a qualidade da experiência. Se é verdade que existe na net cópias cada vez mais fidedignas ao original também é indiscutível que a experiência perde muitos por comparação. Terá, por exemplo, mesmo impacto ver o There Will be Blood no cinema ou no computador? Cenas como a explosão do poço de petróleo não perderão impacto? Eu creio que sim. Porque uma imagem nítida não basta, creio. Falta o som, falta o desfrutar dos grandes planos, falta a fotografia, os pormenores… E é por isso que, com o meu cartão Medeia, continuo fã do “cinema no cinema”. Tenha que esperar 1 ou 3 meses.

A “fuga dos cinemas” é, para mim, um fenómeno actual, curioso e preocupante, porque, em última análise, coloca em risco a subsistência da indústria. Mas essa é só a minha opinião. Portanto deixo a questão a debate: costumam fazer download dos filmes em detrimento das idas ao cinema? Ou, como eu, continuam a privilegiar a sala escura?
posted by P.R @ 1:14 da tarde  
13 Comments:
  • At 1:57 da tarde, Blogger ArmPauloFerreira said…

    Tenho dois filhos quase bébés ainda e a esposa depois de uma depressão não se sente bem dentro das salas de cinema.
    Ao mesmo tempo as condições em casa (por consequência) melhoraram para um sistema home cinema (44" e potente som 5.1 - ainda não passei à fase HD). Computadores e net valente com tráfego ilimitado, leitor divx por usb ligado ao home cinema, armazenamento, etc... levou a chegar ao ponto que o artigo refer. No entanto, não sou muito apologista de descarregar todo o filme... sou mais o adepto das séries.
    Os filmes descarrego alguns sim mas tenho um outro combate de peso e legal: os 4 canais TVCine e as idas à Blockbuster também.
    O cinema... bem é só nos casos em que sinto que se não vir o filme... bem tipo o mundo pode acabar sem ver o filme (tipo o The Dark Knight...).

    Esta questão daria pano para mangas mas há um outro factor principal: o povo em geral quer tudo de borla e não quer saber lá muito da qualidade. Eu não penso assim mas por vezes há títulos que não merecem muito investimento também.
    A culpa é da internet que tem sido entendida pelas pessoas como sendo o local onde tudo é possível e de graça. (No entanto todos lá fazem grandes investimentos em computadores, pens, discos externos gigantes, media centers, colunas, gadgets móveis, consolas, routers wireless, box de tv HD, pacotes de canais, TV cines, etc) para disfrutarem do resto, os conteúdos mas... gratuitamente!

     
  • At 2:36 da tarde, Blogger Carlos said…

    Eu trabalho num cinema no algarve e embora concorde que os preços dos bilhetes ainda estão altos, ainda há muita gente a ser fiel ás idas ao cinema. Mas claro que são uma minoria. E tb é verdade que muitos dos filmes que estream em lisboa ou no porto raramente conseguem vir para baixo e se não forem os cineclubes nunca chegamos a vê-los. Concordo que ver um filme no cinema tem sempre mais impacto. Mas claro que a tecnolgia uma das coisas que faz é que fiquemos mais tempo em casa e deixamos, entre outras coisas, de ir à sala de cinema. Porém o mau comportamento das pessoas ditas civilizadas nas salas tb me parece um motivo a ter em conta...Assim vamos nós e para onde caminhamos não sei...

     
  • At 2:55 da tarde, Blogger P.R said…

    ArmPauloFerreira: É um facto que a comodidade de poder ver um filme em casa é bastante aliciante. Principalmente com o tempo que se tem feito sentir nos ultimos meses :) Mas uma sala de cinema tem sempre aquela "magia" :)

    Carlos: A questão do comportamenteo das pessoas é extremamente pertinente! Quem quer ir ao cinema para ouvir toques de telemovel atrás de nós e pessoas que parecem que estão numa esplanada? Ninguem claro está.

    O meu truque passa por evitar cinemas mais comerciais, como é o caso do Colombo e C&a. Essa é mais uma das vantagens dos cinemas Medeia :)

     
  • At 6:21 da tarde, Blogger Izzi said…

    Eu tento sempre ir ver o que posso ao cinema e o preço por acaso não tem sido objecto de problema, pelo menos para ir ver filmes mais comerciais ou com mais sucesso comercial - ou seja, que estreiam por perto. E o problema não está relacionado com a distância. Não me importo nada de andar uns bons quilómetros para ir ao cinema, mas o que se gasta a percorrer essa distância é que provoca o problema. Fui ver a Valsa de Bashir ao Monumental e além dos 5 euritos que paguei (porque era segunda-feira), paguei mais 2,35 de portagem na ponte, fora a gasolina que gastei no caminho (e não paguei estacionamento...). E isto para mim é dinheiro e não pode ser repetido nem todos os dias nem tão pouco todas as semanas. Por isto, os filmes vão saindo das salas e só os vejo mais tarde, tanto em formato divx, dvd, ou às vezes mesmo só quando é transmitido. O preço dos bilhetes de cinema está obscenamente alto e sim, essa é uma das causas mais pertinentes para passar a ver filmes em casa para a maioria das pessoas. Eu ainda faço o esforço de ir ao cinema, porque para mim nada se iguala a essa experiência - seja para ver qualquer tipo de filme - mas reconheço que estou num grupo cada vez mais restrito...

     
  • At 7:54 da tarde, Blogger Ursdens said…

    Eu sou lamentavelmente afectado pela razão número 3...

    De resto, a iminente recessão é um facto, o que levará a que apenas os verdadeiros cinéfilos não deixem de ir com regularidade ao cinema...

    Quanto ao divx e dvd's, não me parece motivo plausível... Eu tenho um projector em casa e quem me dera poder pagar 5 euros para, numa deslocação curta, ver os mesmos filmes, numa tela monstruosa, com um som monstruoso e com a possibilidade de concentração total... Por exemplo, quando se vê um filme em casa, se apetece fumar um cigarro fuma-se, se apetece por pause para ir buscar uma sandes vai-se e por aí em diante... Deixamo-nos naturalmente consumir pelo comodismo... No cinema todas essas perturbações são afastadas por impossibilidade... Certo que há o fenómeno de quem "rumina pipocas em stereo" ou de quem "atende telemoveis em alta voz", mas, por lisboa, basta escolher uma sala de gente "cinefilamente" educada para isso não acontecer...

    Para quem gosta de cinema a sala e a grande tela serão sempre especiais... O mercado é que não vai arranjando forma de compatibilizar a qualidade e o lucro, mas penso que isso é mais a decadência de uma civilização do que do cinema em si... Longe vão os tempos em que não havia televisão em casa e o cinema era entertenimento familiar em salas de mil lugares, às vezes...

    Enfim...

    Cumprimentos cinéfilos!

     
  • At 1:02 da manhã, Blogger Paulo said…

    Eu sou, por natureza, um adepto da experiência na sala (não acho que nada se compare a ela) e, mesmo quando perco determinado filme em estreia comercial, tento vê-lo em DVD, deixando como última solução o recurso à net, neste aspecto creio que mais por não gostar especialmente de ver cinema no computador. Recorro, confesso, a esses meios quando se trata de séries televisivas, mas aí esse problema não existe, e a experiência será sempre totalmente idêntica à televisiva, ou melhor ainda pois elimina o constante corte para a publicidade que tanto abomino.

    Os motivos são, creio eu, bastante válidos. Devo dizer que, por exemplo, um Medeia Card mesmo no Porto, com 5 salas, não compensa totalmente, sendo Lisboa a única cidade em que me parece que isso faz sentido. De resto, creio que é caríssimo ir ao cinema, e se a "indústria" estiver mesmo preocupada, que reduza o preço dos bilhetes (já claramente acima dos 5€) para algo bem mais em conta. Quanto ao segundo ponto, é uma solução que não entendo de todo. Sabendo que um filme vai estrear, nunca optaria por o ver pela primeira vez em outro local que não a sala, mesmo que a intenção de voltar a vê-lo quando estrear ainda permaneça. É uma experiência diferente e incomparável. Ainda assim, a falta de civismo é também bastante pertinente, e devo dizer que mesmo nas salas supostamente mais respeitáveis do Porto e de Lisboa, já apanhei malta a atender telefones e falar em tom de conversa de café. Mas este ponto creio que se estende a quase todos os tópicos da nossa sociedade em que cada vez parece existir menos respeito pelos outros.

    Percebo que todos estes motivos, aliados ao constante desenvolvimento dos meios de visionamento em casa afastem os cinéfilos das salas, mas pessoalmente a minha prioridade passará sempre por uma tela gigante, com o ruído do projector ao fundo.

     
  • At 5:19 da manhã, Blogger Ursdens said…

    eheh! Last but not least, "o ruído"... Quase me esquecia...

    É quase mágico... aquele "tic-tac", aquele feixe de luz... :)

    Cinema é cinema no cinema!

    Não digo mais...

    Cumprimentos cinéfilos!

     
  • At 10:26 da manhã, Blogger P. said…

    Eu acho que ninguém terá a loucura de pensar que ver um filme em casa (tv ou pc, por muito grandes que os ecrãs sejam) se compara à experiência que é numa sala de cinema.
    Mas sejamos honestos, um quinto do país vive abaixo do limiar da pobreza. dos outros quatro quintos sabe-se bem que há menos dinheiro na carteira do que aquele que circula pelo país.mesmo com todo o tipo de descontos os bilhetes de cinema estão a 5 euros.se eu pensar que cada vez que quiser ir ao cinema o mais provável é ter de ir de carro (ando de transportes todos os dias,o que não significa que me sirva de muito quando se trata de ir ao cinema) e se aproveitar para tomar um café pelo caminho os 5 euros nunca são apenas 5 euros.há filmes que sobrevivem a qualquer crise de bilheteiras, é verdade.mas a verdade é que mesmo para nós, à partida um público interessado em filmes e habituado a conhecer um pouco dos filmes antes de entrar numa sala de cinema, não me parece que seja comportável ver todos os filmes que queremos ver numa sala de cinema.
    digo mais,há filmes que se escolhe ver em casa até porque não se sabe bem o que esperar do filme.a 5 euros o filme há dias em que custa um pouco correr o risco de ver um de que não se gosta, e pagar tanto para isso.bilhetes mais baratos era um serviço à cultura, já para não falar do célebre imposto de 20%sobre tantas outras coisas que envolvem a cultura.A internet, as novas tecnologias, trouxeram este tipo de competitividade.a indústria da música vai-se adaptando como pode (e acreditem que tenho muito mais gozo em ouvir um cd com um folheto à frente do que ouvi-lo em mp3).é provável que a do cinema tenha de ir pelo mesmo caminho.

     
  • At 7:03 da tarde, Blogger Carlos said…

    Outra coisa...com filmes em dvd por menos de 5 euros e muitos menos de 3, tb muita gente deixa de ir ao cinema. E claro, há filmes que devem devem ser vistos no cinema e outros vistos em casa.

     
  • At 8:31 da tarde, Anonymous  said…

    Falta ai a 4ª razaão 'O intervalo'

     
  • At 1:00 da tarde, Blogger P.R said…

    Ze: salvo erro os intervalos só dão nos Castello Lopes...

     
  • At 6:31 da tarde, Blogger Carlos said…

    No cinema que eu trabalho tb há intervalo e não é castello lopes.

     
  • At 6:50 da tarde, Blogger Paulo said…

    O intervalo é uma afronta que me irrita profundamente. Fazer das salas de cinema um gigante aparelho de televisão onde se faz uma pausa para vender (publicidade ou pipocas, tanto faz), quebrando o ritmo pretendido por quem fez o filme é um indicador muito mais grave do que qualquer outro de que o cinema pode estar a morrer. Se nem nas salas o cinema é respeitado, não podem exigir nada a ninguém.

     
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