  
Mais uma vez, a ida ao teatro é uma lufada de ar fresco. Seja comédia ou drama, é sempre, como já tenho dito, uma experiência que me ‘rejuvenesce’. Que dizer então sobre uma peça que explora o mais íntimo da mulher, esse ser ‘sensível’ e tão ‘especial’, mas com características muito próprias e únicas da sua condição humana? O parto, o período, os orgasmos, o prazer, os homens, as idas ao médico. Como se veste uma vagina (vamos chamar-lhe v.)? O que diz? O que gosta de fazer? Nesta peça, a palavra proibída (e que soa sempre tão mal) é aquele sítio “lá em baixo”, uma espécie de cave... muito visitada ou nunca visitada. Ora desejado, ora esquecido; algo determinante ou desconhecido. A forma como a peça está estruturada é muito bem conseguida. Mesmo muito: o equilíbrio entre as v. zangadas, as tímidas, as traumatizadas. Os monólogos irados e os dramáticos, os episódios da vida de mulheres que, lá no fundo, podem ser como nós. É por esse espelho e por tratar um tema que nos é (a todos, mulheres e homens) tão caro, que a peça ganha uma realidade única, traduzida nos desempenhos brilhantes das três actrizes. Todas elas encarnam as suas v. de forma envolvente – falam connosco e contam-nos as suas histórias. O trio é a alma da peça: a convicção e sedução de São José Correia, a elegância e intensidade da Ana Brito e Cunha, e uma nota especial para a profundidade e talento de Guida Maria, que nos proporciona momentos absolutamente fantásticos.
A todas as v., e aos homens que as queiram conhecer melhor, não percam. |