segunda-feira, outubro 22, 2007
Les Chansons d'Amour


Há filmes assim, que nos conquistam pela honestidade com que abordam os seus temas, que parecem abrir o seu coração para que o espectador os possa sentir mais profundamente. São filmes que nascem de e evicam a paixão mais crua pelo cinema. Talvez a mim, Les Chansons d'Amour tenha tocado mais profundamente, porque cometi o suposto crime de, até ao presente momento, não ter ainda visto Dans Paris, a anterior obra do novo menino bonito do cinema francês, Christophe Honoré que, diz quem viu, tem inúmeros pontos de contacto com este novo filme. Seja como for, duvido que esse visionamento afectasse no que quer que fosse o impacto deste visionamento.

Muito se recorda a nouvelle vague quando se fala do cinema de Honoré, um estigma que o cinema francês parece nunca ter ultrapassado conveninentemente (com tudo o que isso tem de bom e de mau). De facto, se atentarmos a essa tendência clara para a ruptura completa com os convencionalismos, essa influência existe efectivamente, mas aquilo que salta desde logo à vista é outra coisa: a paixão. Paixão pelas personagens que apresenta (de novo, com tudo o que de bom e de mau implica a palavra), paixão pelo acto de fazer cinema e pela sua liberdade total. Paixão pela vida, por vivê-la nos limites, por querer fazer de tudo para chegar á satisfação completa que inevitavelmente não se concretiza. Por isso mesmo, o seu plano final acaba por concretizar perfeitamente aquilo que os anteriores minutos de Les Chansons d'Amour vinham preconizando.

Peço desculpa pelos devaneios, mas só consigo ver este filme de uma forma bastante pessoal. Não porque o considere o melhor do ano, ou por ser completamente perfeito, mas porque me atingiu bem perto daquele lugar onde apenas os os filmes especiais o fazem. De certa forma, é como se em cada canção de amor que o título anuncia estivesse um bocado de mim e, arrisco dizer, de cada um de nós. O querer, ao mesmo tempo, abraçar a vida e temer a perda são aqui abordados de uma forma belíssima, como se o "seguir em frente" fosse impossível de concretizar, restando apenas a convivência com a esperança no futuro e as memórias do passado. E a música serve exactamente para isso... para reforçar essa certeza absoluta de que nada é certo nem limpo, e de que a vida se constrói desses momentos.

Como falar agora do filme em si? Tarefa impossível neste momento, ficando este comentário como um pequeno devaneio sobre uma obra sentida - certamente, da parte de quem a fez, como da minha, de quem a viu. Porque de pouco adianta falar no brilhantismo da câmara de Honoré, que tão elegantemente capta esses pedaços da vida parisiense das suas personagens e os coreografa (aos movimentos dos actores, aos sons subtís que as rodeiam...) como grande esteta, assim como de pouco adianta falar da graciosidade do elenco tão distinto que sofre e sorri com o espectador, e nos leva consigo na direcção de todos os sentimentos humanos - grande Louis Garrel - ou da belíssima música de Alex Beaupain ou das suas mais do que louváveis referências cinematográficas quando, no final, é aquela tarde chuvosa, no filme e na sala, que nos aquece o coração. É o cinema que vive, que morre, e que recorda.

posted by Juom @ 12:47 da manhã  
3 Comments:
  • At 3:24 da tarde, Blogger aquelabruxa said…

    mau... é ele outra vez? o moço dos amantes regulares? :)
    e é ela também? a moça dos amantes regulares, à esquerda?
    lol, acho que gostei mesmo do filme (amantes regulares)...

     
  • At 1:42 da manhã, Blogger H. said…

    são mesmo eles... e fazem um par bem interessante (embora aqui um pouco diferente) :)

     
  • At 8:38 da tarde, Anonymous Nuno Cargaleiro said…

    Adorei o filme, como é visivel no meu comentário no meu blog... http://viciadocinematv.blogs.sapo.pt/239981.html

     
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